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A
FESTA de Spiro Scimone
Sobre
A FESTA
Estamos
no meio de uma família, num quadro onde se desenham as nevroses
e as angústias de três elementos totalmente incapazes de
se ouvirem ou pelo menos de se compreenderem. Regressam, neste seu terceiro
texto, muitos dos temas do teatro de Spiro
Scimone, desde logo na linguagem, de uma importância específica
(onde ecoa a língua de um Beckett por exemplo) nas contínuas repetições de frases e
nos diálogos em que cada um só a si se ouve. Outro elemento
importante é o ritmo. Scimone faz soar as palavras que transmitem
as tensões emotivas das personagens daquela família, mas
ao mesmo tempo desenha os silêncios e os ataques musicais, um ataque
de repercussões sempre iguais como iguais são os dias da
família. Também no mundo exterior, descrito com grande simplicidade
pelas personagens, não há esperança nenhuma mas apenas
situações de mesquinhez. A situação em que
decorre o espectáculo é uma situação excepcional,
sobretudo ao nível formal, é a comemoração
do aniversário do casamento
dos dois
cônjuges, perante a indiferença do filho e do pai e os tímidos
preparativos feitos pela mãe. Por um lado, temos um pai e um filho
que não mudam, pelo outro uma mãe que actua nervosamente
tentando agradar ao filho e ao marido oferecendo-lhes comida. Na mãe,
interpretada pelo próprio Scimone,
vê-se uma desilusão que ainda ecoa velhas recordações
e sonhos nunca realizados. A mulher mantém a mesma posição,
braços cruzados e rosto preocupado muitas vezes voltado para o
chão, uma posição de fechamento e impotência
perante o mundo que a rodeia; é apenas capaz de conhecer os objectos
da sua vida em casa mas não consegue sequer ter uma relação
humana activa nem sequer com os elementos da sua família. Não
consegue ouvir, insiste nas mesmas perguntas mesmo que a resposta seja
negativa ("Querem leite?" / "Não." / "Mas
querem açúcar?"). Exactamente como em À ESPERA DE GODOT de Beckett quando
Estragon repete o mesmo sem cuidar no que pensa Vladimir, como se receasse
que este o fizesse mudar. O filho é uma personagem inerte e sem
vontade própria que se arrasta pela casa sem fazer nada. O pai
é um falhado, cansado e nervoso.
São
personagens que estão dentro de uma vitrina numa vida sempre igual
sem tempo nem história.
Franco Quadri, La Republica, Maio de 1998
TÁ SAFO
Companhia fundada por Américo Silva e Miguel Borges em 2002. A FESTA é a sua primeira produção prolongando o trabalho realizado com o autor Spiro Scimone dentro dos Artistas Unidos (co-produtores minoritários do projecto). Interessada em desenvolver projectos contemporâneos, TÁ SAFO prepara para 2004 a produção de um texto inédito de José Maria Vieira Mendes a partir do contista nova-iorquino Damon Runyon.
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