| O AMANTE de Harold Pinter |
Espaço A Capital, 24 de Janeiro de 2002 O texto está publicado no volume TEATRO I de Harold Pinter (Ed. Relógio d´Água)
Uma relojoaria diabólicamente devastadora. Aqui Pinter trata do homem sozinho, perante a sociedade. Fala-se aqui da solidão, do medo dos outros escondido atrás de uma máscara irónica ou agressiva. E as personagens têm de se compreender tal como são: incapazes de se compreender e de se encontar. O teatro de Harold Pinter revela um universo singular, cómico e aterrador, feito de sub-entendidos, mal-entendidos ou puros equívocos. Nele observa-se, como se fosse ao microscópio, personagens que vegetam confusamente, de quem quase nada se sabe e que, de repente, explodem num confronto em que as palavras são armas mortais. Estamos no reino do falso para se atingir uma verdade que é ainda mais falsa. Tal como em grandes obras clássicas, o que aqui é tratado é o conflito entre uma humanidade dominada, socializada e uma outra, selvagem, guiada pelos instintos. Num registo miniatural, com elegância e um humor seco, estamos não na escala épica e vasta das "Bacantes" ou do "Balcão" de Genet mas no nível de um comédia subtil e intima. As personagens de Pinter exprimem exactamente aquilo que lhes vem à mente e muitas vezes emerge directamente do inconsciente. Pode acontecer que isso nada tenha a ver com a acção ou com o que acaba de dizer a outra personagem. Para dizer a verdade, não há diálogo.As personagens de Pinter só se revelam aos poucos e de uma maneira incompleta: esse é o trabalho do actor. O Amante é uma peça ardilosa. Começa em comédia de costumes, passa para a exploração de ilusões fetichistas que tanto podem aguentar um casamento como sugerir um esgotamento nervoso e finalmente faz a reconciliação entre a realidade e a fantasia. Com grande delicadeza, Pinter mostra como os ingleses de certa classe e tipo têm necessidade de dividir as mulheres em parceiras elegantes e putas transaccionáveis. |


