| DOIS IRMÃOS de Fausto Paravidino |
Estreia Festival de Almada, 16 de Julho de 2004 LEV Deixa-me ler. Dois irmãos. Uma rapariga, um espaço fechado, uma cozinha, um crime. Que corpo é este que se intromete na vida dos dois irmãos? Que tragédia se desenha entre malgas de Corn Flakes e frascos de Nutella? Que serviço militar é aquele para que parte Lev? Que nomes russos são estes, os dos dois irmãos? Em poucos anos, escreveu seis peças, cada qual do seu género: mas falando sempre dos jovens e dos seus problemas, por vezes dramáticos mas também cómicos, dada a bizarria das suas personagens retiradas da vida. Dos retratos de geração, Paravidino passa, após os acontecimentos de Julho de 2001 em Génova, ao teatro político com a facilidade de um verdadeiro escritor que sabe reinventar a vida, falando com descontraída e feroz imediatez dos nossos tiques e da sociedade ameaçadora. “Acabou o tempo das frases normais” (Lev)
“Não é um problema de relações, é só um problema de limpeza”, avisa Boris, o irmão mais velho. Se é a partir da denegação que se cria o diálogo, que se encena uma comunicação perturbada em que nas palavras há muito mais do que o seu sentido imediato, ou haja apenas o mesmo sem-sentido, é verdade também que, já a partir do título, somos lembrados de que é de um problema de limpeza, de estabelecimento de simetria que se trata. Dois irmãos, Boris e Lev, e um terceiro elemento, Erica, namorada, objecto comum de desejo. Fonte de perturbação, motor da “limpeza” que irá reconstituir a verdade do título, eixo em torno do qual vão girar as tensões que fazem da peça quase um “thriller” psicológico. Alianças e traições, conjunções e separações e o fantasma de uma ligação superior, de uma força maior, da força que liga o mais velho ao mais novo, a relação doentia de dois irmãos. A combinação das personagens vai mudando, jogada em torno das entradas e das saídas. Saindo, as personagens colocam-se a salvo, mas estão destinadas a regressar e a pagar a sua deserção (como Lev soldado). “Tentei sair, não se pode? Acho que também vos fazia bem”, diz Erica. E será depois da única saída do irmão mais velho que a destruição tomará conta da cozinha. Depois há as cartas, cartas faladas, gravações em cassetes, para os pais e depois para Lev. Cartas onde a mentira é intencional, onde é proibido dizer a verdade. Cartas que marcam a fronteira entre as “nossas coisas”, que dizem respeito apenas aos irmãos, e Erica, o elemento exterior, que vem perturbar a fronteira entre mentira e verdade (ou entre as cartas e a realidade da cozinha) com os seus jogos da verdade e da mentira.
|



