| UM HOMEM FALIDO de David Lescot |
No Instituto Franco-Português de 29 de Março a 9 de Abril de 2011 O Autor estará presente na estreia, a 29 de Março, quando será lançado o Livrinho de Teatro nº52 A EUROPEIA e OUTROS TEXTOS, com traduções de Isabel Lopes, Alexandre Andrade, Joana Frazão e Marie Amelie Robilliard. UM HOMEM FALIDO está editado na Revista Artistas Unidos nº 21. A gravação áudio da peça foi editada, em parceria com a MHIJ, na colecção Teatro para Ouvir (1 CD) O homem Mas eu tenho a sensação de dar tudo eu dou tudo todas as vezes eu dei sempre tudo. Um homem tem a oportunidade para recomeçar a sua vida. Um homem na falência, termo público tornado privado, decide deixar de possuir e remete-se à sua condição mínima, desprendendo-se de tudo o que pode ser adquirido. Tal como no romance de David Matteson e no filme The Incredible Shrinking Man de Jack Arnold, este homem vai “encolhendo” até desaparecer no meio das páginas de um livro, no meio de um pensamento. Esta realidade deformada vai permitir-nos constatar que quando a lei humana se torna capaz de excluir o homem que não tem propriedade ou meios de subsistência, resta-lhe a lei natural imutável, e esta lei está do lado essencial e simples das coisas, do pensamento, do homem que nunca se aborrece, que nunca se farta de pensar. E esta falta de ócio, e de tudo o resto (propriedade e meios de subsistência), torna-o temível. Um casal acabou de se separar, mas ao mesmo tempo o homem ficou arruinado. A dívida atinge os 24 664 euros. Como pagá-la? Todos os dias o mandatário liquidatário faz-lhe uma visita e leva-lhe alguma coisa. Pouco a pouco tudo o que lhe resta da mobília e dos objectos é apreendido. E só fica um homem despojado de tudo, confrontado com um quotidiano mais do que inseguro. A escrita é magnífica, este é um texto tocado pela graça. A "Falência civil" O Homem que Encolhe Um desempregado rendido à sua condição. Uma mulher que o abandona. Um Mandatário Liquidatário que aparece, encarregado de estabelecer “o mínimo de subsistência” ou “ os bens inalienáveis”, de negociar com os credores, de organizar um plano de reembolso. Neste texto, todas as referências são oficiais. David Lescot investigou “o problema” antes de escrever Um Homem Falido: “ Não se trata, apesar de tudo, de uma luta contra a pobreza, mas de uma peça sobre a separação, material e dos afectos. Não é suficiente fazer “stop” para que as coisas parem. Ainda podemos hesitar, voltar atrás…Gostaria que este processo de hesitar, de voltar atrás, constituísse o fio desta peça que será, em suma, um pequeno manual de resistência. O mundo do Homem, o nosso, é o do sucesso. Quando somos excluídos, podemos ter o desejo de apagar tudo. O Homem Falido está em luta. Fazendo lembrar a expressão de Beckett, no sentido de na vida: “ já estar morto”. "Então o homem vai tentar viver sem nada supérfluo, num mundo restringido pela lei e da mulher que apesar de tudo, acaba por procurar sempre... É-lhe oferecida uma segunda oportunidade. Com a ajuda do Mandatário Liquidatário pode tentar recomeçar. Somente os seres humanos, que são um resultado de uma experiência de que não se pode fugir, é que nunca podem começar a partir do zero.”E é uma dupla experiência; ela também diz respeito ao Mandatário Liquidatário: ele encarna a teoria de que o homem é o resultado das experiências vividas. Podemos imaginar estes homens como duas partes que se complementam num único indivíduo. Nada mais do que um homem que diminui até se perder gradualmente num tempo desmesuradamente longo, percorrendo um fluxo imenso e interminável de palavras escritas. Lembramo-nos imediatamente do filme de Jack Arnold The Incredible Shrinking Man (que após passar por uma nuvem radioactiva, acaba numa caverna, apenas uma partícula de poeira para um gato e para uma aranha). Tendo visto o filme na sua infância, David Lescot terá pensado no romance de Richard Matheson, em cujas páginas o Homem vai “encolhendo”… Se David Lescot, muitas vezes se refere ao cinema através das suas atmosferas e personagens, não deixa por isso mesmo de amar o teatro. Essa mudança gradual para o que é surreal, o que balança entre dois mundos. E acima de tudo, amaKafka. David Lescot cita Sarrazac: Uma semelhança misteriosa. "Ver as coisas de uma maneira estranha, mas reconhecê-las na mesma. Distorcer a visão para melhor poder discernir como funciona o mundo, conhecendo-o verdadeiramente, a partir de dentro ". Aqui pretende-se fazer o público reflectir sobre um tema premente das sociedades contemporâneas: o sobre-endividamento das famílias e o crescente desemprego no masculino. Um homem que se vê, subitamente, sem emprego e cheio de dívidas, um homem a quem a mulher abandona, o que pode fazer senão começar a vender tudo o que tem? O executor das dívidas é - juntamente com o público - espectador deste despojamento involuntário que levará o protagonista à descoberta daquilo que lhe é mais próprio e que nada nem ninguém lhe poderão tirar. |


