| FACAS NAS GALINHAS de David Harrower |
Espaço A Capital, 28 de Dezembro de 2001. O texto está publicado no nº 4 da Artistas Unidos - Revista
"É uma peça sobre a distância entre língua e experiência. Uma mulher descobrindo isto. Uma mulher descobrindo os usos da linguagem." "Eu não uso uma linguagem realista, quero criar uma linguagem mais pura, mais poética, que significa mais do que aquilo que parece. E descobri isso escrevendo esta peça." É ponto assente nos dias de hoje que as palavras estão esgotadas pelo uso abusivo que delas fazemos diariamente (.) Para lhes devolver a força é preciso voltar a chamar a atenção para o seu poder de evocar realidades e de criar fantasias. E é aqui que David Harrower revela uma mestria inesperada (...) Mais um texto tristemente actual que os Artistas Unidos nos dão o privilégio de ficar a conhecer. Encolhida dentro das roupas rudes de uma mulher do campo, é ela [Joana Bárcia] a grande protagonista dos mais belos momentos de uma peça que aposta na simplicidade e numa inquietante contenção narrativa para enaltecer o poder do silêncio e, através dele, sublimar a dimensão poética da linguagem. É uma alegria descobrir um autor que escreve com economia dramática, compreende o poder da linguagem e do silêncio, e que coloca uma mulher no cerne da sua obra. O que torna a peça extraordinária é a força da sua expressão filosófica e a aparente facilidade com que Harrower a integra na acção. O assunto é a linguagem - a maneira como atribuímos nomes às coisas e como esses nomes alteram a nossa percepção das coisas. Primitivo, rude nos seus três arquétipos - o Lavrador, o Moleiro, a Rapariga - e com a linguagem como tema sensual, o amor e o erotismo como seu dinamismo sexual. |


