| UM PARA O CAMINHO de Harold Pinter |
Estreia Espaço A Capital/ Teatro Paulo Claro, 27 de Janeiro de 2001 O texto está publicado no volume TEATRO II de Harold Pinter (Ed. Relógio d' Água) ONE FOR THE ROAD relaciona, em quarto curtas cenas, Nicolas, um alto governante de um estado não mencionado, com três membros de uma família que estão presos: Victor, a sua mulher Gila e o filho deles, Nicky. Nicolas personifica o poder do estado; e no decorrer das entrevistas, percebemos que Victor foi torturado e mutilado, Gila violada, e nos últimos instantes que Nicky foi morto.' (.) Aquilo que torna a peça dramaticamente efectiva é que Nicolas, que possui todo o poder, parece menos seguro que as vítimas e anseia por uma validação para as suas acções. (.) 'Tu tens respeito por mim, não é?' pergunta ele. 'Não me engano se pensar que tens, pois não?' E outra vez 'Gostavas de me conhecer melhor?' e mais tarde, 'O que é que me dizes? Somos amigos? e 'Diz-me. a sério. estás a começar a simpatizar comigo?' Esta não é a voz de um homem forte, mas sim de um homem fraco e inseguro. (.) Pinter não está a apenas a lidar com um processo universal - como ele referiu na altura, pelo menos noventa países praticam a tortura normalmente - mas com a separação entre linguagem e realidade que come a nossa cultura. Harrold Pinter. Num ensaio de O SERVIÇO para a TV reparei que para os actores era claro que o tipo que está lá em cima e que nunca é visto representa a autoridade. É porque põe a autoridade em causa que Gus é liquidado no fim da peça ou está quase a sê-lo. Na estreia, em 1960, a metáfora política era muito clara para os actores e o director. Mas não para os crírticos. Tynan nunca percebeu que a peça podia falar de uma coisa precisa. FELIZ ANIVERSÁRIO também mostra uma personagem esmagada por forças que emanam de um determinado poder. E acho que CÂMARA ARDENTE trata fundamentalmente do abuso de poder. Essas questões estavam vivas no meu espírito nesses anos. Claro que essas peças se situam ao nível da metáfora enquanto UM PARA O CAMINHO descreve uma situação mais específica, mais directa. Não é uma parábola do que quer que seja. A peça descreve uma situação em que vemos vítimas da tortura. Vemos o torcionário e as vítimas e vemos claramente que duas das vítimas foram torturadas fisicamente. (.) Um ano depois da estreia de Um para o Caminho, em Março de 1985, Pinter e Arthur Miller, vice-presidentes do PEN inglês e americano respectivamente, passaram cinco dias na Turquia com o objectivo inicial de exprimir solidariedade para com os escritores dissidentes. Uma visita que iria ter repercussões infindáveis tanto no interior como no exterior do país. Enquanto estiveram na Turquia, Pinter e Miller falaram com mais de uma centena de intelectuais, ex-presidiários, políticos e diplomatas. Apareceram na Associação de Jornalistas de Istambul com uma petição assinada por 2330 escritores, cientistas e eclesiásticos exigindo o respeito internacional pelos direitos humanos. (.) A Turquia teve sempre problemas para decidir o que fazer com os seus prisioneiros: em vez de tomarem uma decisão, espancam-nos. Fomos com a esperança de chamar a atenção para isso e o Harold foi uma revolução: o homem-revolução na Turquia. O que aconteceu foi que, já que os Estados Unidos são o financiador do país - a Turquia é um dos dois ou três maiores receptores de ajuda americana desde que têm uma grande fronteira com a União Soviética - tivemos um jantar com o embaixador americano que acabou por ser histórico. O que aconteceu foi que eu estava sentado junto à esposa do embaixador e estava tudo muito formal e civilizado quando ouvi o Harold a vociferar do outro lado da mesa. Ele gritava por cima da mesa para a editora do maior jornal da Turquia que, ao que parecia, tinha dito que nós só lá estávamos por causa da publicidade. O Harold disse, 'Eu atiro isso de volta à sua cara': ainda bem que ele só disse isto figurativamente. Tive que fazer um pequeno discurso ao embaixador explicando a catástrofe que a Turquia era aos nossos olhos, e o Harold e eu. não fomos exactamente expulsos. escapámos no final do jantar. E, quando embarcámos no avião no final da viagem, descobri que tínhamos sido banidos. eu nunca teria feito aquilo que o Harold fez porque sou muito educado, mas ele foi extraordinário. Nós fazíamos um bom par porque ele explodia e eu implodia. Nós éramos o mau tipo e o bom tipo. O FBI e a polícia mandam normalmente um par assim: um deles ameaça e o outro torna-se amigo. Eu era o amigo. Mas achei que o Harold se portou magnificamente como sempre. Eu só não queria era estar no outro lado da fúria dele. Michael Billington The Life and the Work of Harold Pinter Nicolas fica alegre quando subverte os poderes de um intelectual e ganha supremacia sobre Victor quando informa que os seus soldados 'mijaram' nos livros dele. Mas será por acaso que o nome de Victor é Victor? Será ele vitorioso em algum sentido? A existir alguma vitória ela só poderá residir na atenção do público, que engendrará a acção. |


