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DOIS HOMENS de José Maria Vieira Mendes (a partir de Kafka)
O texto está publicado no volume Três Peças Breves (Edições Cotovia). Fez-se uma colagem de diversos escritos de Kafka (contos, diários, cartas
e romances), de olhos postos, não no Kafka excessivamente apontado como
crítico ou caricaturista de regimes e instituições, mas no Kafka escritor
do Indivíduio, nas suas quase obsessivas reflexões autobiográficas sobre
o processo de escrita que sempre vinha acompanhado por um desejo inatingível
de perfeição, culpa de quase tudo o que do escritor nos resta se ter ficado
pelo fragmento incompleto. Um
Homem fala, caminhando num escritório onde o tempo parasse. Afunda-se
atrás da secretária minúscula, quase colada ao corpo, arrasta-a, para
voltar a afundar-se nela, cosido a um canto. Tem brilhantina no cabelo
e fato escuro, move-se em ambiente sépia de fundo negro, a frouxa luz
incide em madeira gasta, velhos papéis espalhados, pastas de arquivo amontoadas.
Trancou-se no escritório, como à noite se tranca no quarto, sabendo, na
sua consciência de condenado, que "não adianta trancar a porta, duas portas...
ele entra na mesma". José
Maria Vieira Mendes construiu um texto exemplar, de rigor e de sensibilidade,
que engloba, na sua estratégia dramatúrgica, personagem, interlocutor
e o mundo. Luís Gaspar construiu a personagem certa para a "medida" do
seu texto. Um
exaustivo compêndio de textos de Kafka. Quase podia dizer-se, o Kafka
todo, compendiado por José Maria Vieira Mendes e encenado visceralmente
por Luís Gaspar. A descontinuidade é uma característica deste teatro da
palavra, onde, quando menos se espera, um Kafka esconde sempre outro Kafka,
mais inesperado e inatingível. |
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