FALTA
(CRAVE) de Sarah Kane
Estreia Espaço A Capital/ Teatro Paulo Claro, 18 de Janeiro de 2001
O texto está publicado no volume O TEATRO COMPLETO de Sarah Kane (Ed. Campo das Letras)
"A-
E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer
que gosto dos teus sapatos e sentar-me em degraus enquanto tu tomas banho
e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir
comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me
no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas"
Sarah
Kane,
Falta (Crave)
FALTA
(CRAVE): Quatro vozes cruzadas. Quatro personagens numa só voz. Percursos
quase paralelos à procura daquilo que lhes falta: o amor, um filho, a
morte, o "mais". Necessidades dolorosas. Desejos que se cruzam, gestos
que se alongam e se separam para prosseguirem uma viagem interior. A palavra
é o último gesto. Um gesto sem memória. Medos. Esperanças que se tornam
desesperos. Desesperos que são silêncios. Silêncios que se tornam gritos.
Um grito a quatro vozes. Na estreia deste texto em Londres, numa encenação
de Vicky Featherstone - a cujos ensaios assistiu Sarah Kane - as vozes
eram atribuídas a dois homens (um mais velho, outro mais novo) e a duas
mulheres (uma mais velha, outra mais nova e negra). Mas nada no texto
inglês obriga a esta divisão. A escolha do sexo e idade dos actores é
assim o ponto de partida para a análise de um texto enigmático e moderno
como este.
"Em
toda a sua obra temos a ideia do palco como ringue e como campo de batalha,
mas o sentido das acções que aí se desenrolam muda completamente. O percurso
de Kane, de facto, explicitou claramente com os últimos dois trabalhos
(FALTA e 4.48 PSICOSE) a vontade de não ficar presa numa única imagem
FALTA apesar de falar ainda de violência e prepotência, marca decididamente
uma viragem em direcção a uma explícita colocação poética, montando afirmações
e fragmentos de histórias que às vezes remetem para outras obras (Eliot,
Shakespeare) e às vezes para a Bíblia confiando-os a quatro vozes aparentemente
indistintas: A, B, C e M. (.) Sarah Kane é a maior expoente da chamada
"new angry generation" britânica, apesar de a raiva, que de Osborne em
diante fustiga a recepção de todos os novos autores ingleses controversos,
ser na realidade apenas um termo retórico. A leitura dada pela imprensa
diária, onde, por enquanto, apareceram sobretudo tomadas de posição crítica
sobre a autora, visaram de facto, salvo poucas excepções, banalizá-la,
representando-a, na melhor das hipóteses, como uma monocórdica escritora
engagè que, na sua própria obra, se confronta directamente com a sociedade,
fazendo tábua rasa e falando contra tudo e contra todos."
Luca
Scarlini,
do prefácio a Tutto Il Teatro de Sarah Kane, Einaudi
A
encenação de Jorge Silva Melo é tensa, dura, adequada ao texto. As interpretações
dos quatro actores são também de grande qualidade.
Inês
Pinto Queiroz
Netparque 21/01/2001
Trata-se
de uma experiência pouco comum no teatro e de um universo intensa e invulgarmente
poético que sabe colocar, no horizonte do mais sombrio e desesperado discurso,
um mar de ouro pálido, um céu rosado e o desejo de uma existência feliz
e livre.
João
Carneiro
Expresso
Este
artigo não diz nem metade acerca de FALTA, mas às vezes mais vale ficar
em silêncio perante um objecto artístico como o é esta peça de Sarah Kane,
cuja obra conhecemos devido aos Artistas Unidos (e a quem devemos agradecer).
J.D.R.
Blitz, 23/01/2001
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