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FIM OU TENDE MISERICÓRDIA DE NÓS de Jorge Silva Melo
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O FIM OU TENDE MISERICÓRDIA DE NÓS de Jorge Silva Melo
Com Manuel Wiborg, Paulo Claro, Joana Bárcia, António Simão, Jorge Andrade, Pedro Carraca, Ivo Canelas, Daniel Martinho, Miguel Mendes, João Meireles, Paulo Patraquim, Hugo Samora, Bruno Bravo, Dinarte Branco e Glicínia Quartin
Cenografia e figurinos Rita Lopes Alves
Adereços Isabel Boavida
Luz Pedro Domingos
Movimento João Fiadeiro
Música José Eduardo Rocha
Construções Mestre Galhano (Cendrev), Sérgio Matos e Gabriel Martins
Direcção de produção Pedro Caldas
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Assistente de produção Sérgio Matos
Encenação Jorge Silva Melo assistido por Lucinda Loureiro, João Meireles e o estagiário Domingos Guimarães
Estreia na Culturgest, 10 de Outubro de 1996.
Digressão por Portalegre, Évora, Damaia, Coimbra, Braga e Porto.
Litografia Portugal, 25 de Setembro de 1997.
O texto (escrito entre Fevereiro e Maio de 1996 em colaboração com Joana Bárcia, Manuel Wiborg, Paulo Claro, António Simão, Jorge Andrade, João Meireles, Daniel Martinho, Miguel Mendes e João Pedro Rodrigues) está publicado pelas Edições Cotovia. |
CATANIA - Não resistiu
ao remorso e enforcou-se. Ou, pelo menos, é o que até agora se sabe. Os
guardas prisionais encontraram-no ainda com vida na cela da prisão de
Caltagirone, onde estava preso desde a passada sexta-feira. Felice Motta,
de 20 anos, suicidou-se na manhã de ontem. O jovem fora encarcerado na
semana passada acusado de ter assassinado e queimado o cadáver de Antonella
La Rocca, uma rapariga de Palagonia, quem desaparecera sem deixar rasto
no passado mês de Março.
Michela
Guiffrida
La Repubblica, de 28 de julho de 1993
Sempre
me prendi aos casos do dia. Neles deparamos com a opacidade do real, a
sua falta de sentido, o terrível silêncio dos homens e de Deus. O caso
do dia não tem justificação, perante ele é sempre a mesma exclamação a
que se ergue: coisa horrível! Já fiz o Woyzeck de Georg Büchner nos longínquos
anos 70, e nessa altura li o que Ingmar Bergman dizia: nunca se faz essa
peça inacabada uma só vez. Hoje, arranjei esta uma maneira de voltar ao
Woyzeck, texto que nasce da perplexidade de Büchner perante um crime autêntico
e um inquietante e minucioso processo de tribunal. À brutalidade dos factos,
ao silêncio obstinado do assassino - porque cometeu ele o crime? porque
o confessou, se nem sequer o cadáver foi descoberto? porque se suicidou
ele na cadeia? - quero responder com uma escuta atenta. Escutar os inventados
passos desta personagem silenciosa, certamente banal, escutar o vazio
do seu pensamento - uma vida jovem enredada num mecanismo de destruição,
a partir da boçalidade de um fim de semana entre amigos da terra, a violência
a irromper, a morte a aproximar-se.
[...]
Transformámos,
assim, o jovem criminoso siciliano da história original num rapaz português,
muito jovem, rapaz que veio de uma aldeia onde há uma lagoa, camponês,
caçador, solitário. E apanhamo-lo naquele momento de tribal iniciação
que é o serviço militar obrigatório - afastado da sua terra, violentado
na sua individualidade. E num ambiente onde a exacerbação da virilidade
é lei. E o pavor, o tão masculino medo do sexo.
[...]
A pouco e pouco vamos constituindo nem sei bem o quê. Um bando, uma quadrilha,
uma associação de malfeitores, talvez uma equipa. Já sabemos de cor alguns
números de telefone... Já nos conhecemos?
[...]
O que é bom é que não vai ser preciso falar, havemos de pressentir-nos,
sentir o trabalho uns dos outros e, a pouco e pouco, envelhecermos - nem
sempre juntos. Nos verões? Todos os anos, pelo verão? É claro que não
vai ser assim...
Jorge
Silva Melo
13 Junho 1996
Tudo na peça é
absolutamente original e português. A começar pelo local onde se passam
os acontecimentos: a caserna. O palco do Grande Auditório é uma vasta
e sórdida camarata onde 13 magalas dormem, dormitam, trocam piropos, insultos
e piadas grosseiras, contam aventuras e fazem confissões, rememoram as
mulheres, ou as namoradas, ou os filhos que deixaram na terra, fazem projectos
para depois da tropa, idealizam empregos, negócios, expedientes. Um microcosmos
com uma atmosfera ora impregnada de erotismo, ora carregada de violência.
O Fim ou Tende Misericórdia de Nós deveria ser visto em todas as terras
do país. É um projecto de Utilidade Pública.
Manuel
João Gomes
Público, Outubro 1996
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