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Uma
história tão confusa
Artistas
Unidos entre Herodes e Pilatos
Desde
a tomada de posse da nova CML até Julho 2002
Logo a 10 de Janeiro de 2002, no primeiro dia após a tomada de
posse do Dr. Pedro Santana Lopes como Presidente da Câmara Municipal
de Lisboa, entregámos, na recepção dos Paços
do Concelho, o projecto de CENTRO DE ARTES DA CAPITAL, com cópia
para a Vereadora da Cultura.
Poucas semanas depois, reunimos com a Vereadora para analisar essa proposta.
E, da análise, surgiu uma vontade clara de deitar mãos à
obra e de verificar os muitos problemas que até então tinham
ficado por resolver. Foi, assim, que fomos mantendo contactos regulares
com a Drª Maria Manuel Pinto Barbosa e, a partir de certa altura,
também com o Dr. José Monterroso Teixeira.
Igualmente entregámos o (processo a Sua Ex° o Senhor Ministro
da Cultura), em 8 de Abril, na manhã a seguir à tomada de
posse do executivo. E reunimos, em finais de Maio, com o Secretário
de Estado da Cultura, Dr. José Amaral Lopes, a quem pudémos
expor os nossos problemas, mesmo aqueles que nada têm a ver com
a cedência do edifício ou sua recuperação.
Estas reuniões ganharam mais precisão após a visita
À CAPITAL do Presidente da Câmara - em 4 de Junho - acompanhado
do Senhor Vice-Presidente, da Senhora Vereadora e do Director Municipal
da Cultura. A partir desta data, tudo parecia delinear-se num sentido
inequívoco.
Houve, por esta altura, uma reunião longa e bastante pormenorizada
n´ A CAPITAL com o Secretário de Estado da Cultura, Dr. José
Amaral Lopes, a Vereadora Drª Maria Manuel Pinto Barbosa e o Director
Municipal da Cultura, Dr. José de Monterroso Teixeira. E todos
acordámos em que o primeiro passo seria retomarmos um plano de
requalificação já entregue anteriormente ao MC no
sentido de se realizarem algumas intervenções rápidas
no edifício (instalação de quadro eléctrico,
sinalização de saídas, remoção de entulhos
etc - cfr. documentação anexa) que permitissem a continuação
da utilização d´A Capital até à definição
- que seria conjunta entre a CML e o MC - do interesse e viabilidade da
nossa proposta. Esse plano, a que passámos a chamar "cirúrgico",
tinha como objectivo, por um lado, impedir a degradação
do edifício e os custos da sua conservação por nossa
parte e de, por outro, permitir a temporada 2002/3. E em todas estas reuniões
ficou clara uma vontade de estudar o projecto a longo prazo, de que este
plano "cirúrgico" seria um primeiro passo.
Quase
em Agosto
Em 5 de Julho, a EDP veio cortar a electricidade (cfr. documento anexo)
por ter passado um prazo acordado com a CML ( esta situação
nunca fora resolvida e esta ocorrência era regular). Contactada
a Drª Maria Manuel Pinto Barbosa, foi-nos dito que a CML renovaria
o acordo com a EDP. A 9 de Julho, recebemos cópia de um fax nessa
data enviado pela Vereação da Cultura à Directora
da DSEM em que se solicita "que sejam tomadas as providências
para que não se efectue o corte de energia por um período
de um mês, momento em que esperamos estejam reunidas as condições
para a regularização da cedência do imóvel
aos Artistas Unidos" (cfr. documento anexo)
Em
Agosto
Começaram, nesta altura, inúmeras visitas ao edifício,
coordenadas, ora pelo Gabinete Técnico do Bairro Alto, ora pelo
Pelouro da Cultura. A última foi ainda em meados de Agosto organizada
pela Drª Lucinda Lopes acompanhada pelo Sr. César Gomes e
por bombeiros que vieram tratar do mapa da colocação dos
extintores, sinalização de emergência, plano de remoção
de entulhos, etc. sendo-nos repetidas vezes dito que deveríamos
actuar com rapidez para que a temporada pudesse abrir normalmente no dia
5 de Setembro (cfr..faxes de 14 e 21 de Agosto).
Por outro lado, realizaram-se regulares reuniões e telefonemas
com o Dr. Monterroso Teixeira, Director Municipal da Cultura. A 16 de
Agosto, a reunião consistiu na análise, já bastante
pormenorizada, de alguns orçamentos apresentados dentro do plano
de "requalificação imediata" e no constatar da
desactualização de outros que nos comprometemos a apresentar
quando o Dr. Monterroso Teixeira regressasse de uma viagem, uma semana
depois. E previmos um encontro para os últimos dias de Agosto com
a CML e o Arq. Pedro Maurício Borges (autor do esboço de
projecto em Fevereiro de 2000). E foram-nos solicitados mais orçamentos
para pequenas reparações nos pontos frágeis dos telhados
- reparações que, por demasiado dispendiosas, não
tínhamos sequer contemplado na nossa proposta de "intervenção
cirúrgica". Mas - foi a conclusão a que, nesse dia,
chegámos -, talvez cortando noutros itens menos relevantes (ex.:
casas de banho e equipamento) pudéssemos investir em reparações
mais profundas nos pontos mais debilitados do telhado.
No fim da tarde de 3ª feira, dia 27 de Agosto, recebemos um telefonema
da Vereadora convocando para uma reunião no dia a seguir, que,
no entanto, não se sabia a que horas poderia ter lugar. Informámos
que só tínhamos uma hora na qual a referida reunião
seria impossível (devido a consulta médica prevista para
as 12h) mas que bastaria um telefonema para comparecermos na CML passada
meia-hora. Houve, ainda, um outro telefonema já na tarde de 4ª
feira, 28 de Agosto, mas, ao que parece, a sessão da Câmara
desse dia prolongou-se, pelo que não foi possível o encontro.
Na 6ª feira, dia 29, telefona o Dr. Monterroso Teixeira sugerindo
duas horas diferentes para o encontro (15.30h ou 18h). As 15.30h, a reunião
teve início sem a presença da Vereadora. O Dr. Monterroso
Teixeira avisou-me que o Presidente despachara no sentido do encerramento
do local para espectáculos. E perguntou-me se não seria
possível mudarmo-nos para o Palácio Benagazil perto do Aeroporto
que eu não conhecia. A Drª Maria Manuel Pinto Barbosa chegou
e informou-me então que o Presidente tinha despachado o encerramento
do local ao público e ao funcionamento. Sugeri então que
deveríamos fasear o encerramento, tal como acabara de propor ao
Dr. Monterroso Teixeira e que não deveríamos pôr em
causa a estreia, a 5 de Setembro de MOUCHETTE de Arne Sierens, tanto mais
que este espectáculo ocorreria no rés-do-chão, que
era, na opinião de todos, o espaço com menos perigo do edifício,
dado possuir cinco saídas. Ficou combinado que eu iria para casa
preparar um mail a ser enviado ainda nessa tarde com esta contra-proposta.
Ao entrar para o elevador do mesmo piso, toca o meu telemóvel -
e perco a rede ao fecharem-se as portas. Já na rua, ligo para a
Capital e sou informado que a polícia está nos locais com
uma notificação que mandava encerrar de imediato o local.
Depois disto, não consegui voltar a contactar a Câmara (a
Vereadora deslocara-se ao Chiado onde havia um encontro com Sua Exa, o
Senhor Primeiro Ministro) - a não ser à meia-noite quando,
num debate da SIC-NOTÍCIAS, me encontrei com a Vereadora do Urbanismo,
Drª Eduarda Napoleão, que aí claramente se responsabilizou
pelo parecer dado que originou o encerramento das instalações.
Logo após o debate, a Vereadora esperou por mim e discutimos várias
hipóteses de solução. No dia seguinte, 6ª feira,
dia 30 de Agosto, a Vereadora Eduarda Napoleão telefonou-me várias
vezes e, ao fim da tarde, combinámos um encontro para segunda-feira,
2 de Setembro, em que visitarímos o Palácio Benagazil e
planearíamos mudanças. A Vereadora sugeria-me então
vários locais para a apresentação dos espectáculos
"destelhados" - locais que iam do Pavilhão do Futuro
na Expo à Estufa Fria, ao CCB, ao Teatro Vasco Santana, uma das
salas do Cinema São Jorge ou o Teatro Taborda. Enviei, nesse dia
mesmo, uma listagem das características técnicas da realização
dos espectáculos assim como de espaços adequados para a
apresentação dos mesmos ( faxes de 30 de Agosto e 1 de Setembro)
que o Pelouro do Urbanismo se comprometeu a contactar directamente.
Nessa mesma 6ª feira, a polícia municipal entrou no edifício
e deu ordem de prisão à Directora de Produção
por crime de desobediência (essa funcionária assinara a notificação
da véspera). O incidente foi resolvido com uns telefonemas para
o Comando-Geral - e não houve prisão.
Nesse mesmo dia, requeremos junto do Tribunal Administrativo do Círculo
de Lisboa, e nos termos do artigo 77º n.º 1 alínea b)
da Lei de Processo nos Tribunais Administrativos (LPTA) um pedido de suspensão
de eficácia do Despacho de 27 de Agosto de 2002 de Sua Exª
o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Na 3ª feira, dia 3 de Setembro, pela manhã, telefona-me a
Drª Maria Manuel Pinto Barbosa dizendo que o estado de conservação
e segurança do palácio Benagazil era "pior do que a
Capital". E, no dia seguinte, foi-nos sugerido visitar de imediato
uma parte do edifício de Braço de Prata ( R. Fernando Palha,
26 rc esquerdo). Assim o fizemos e acompanhados por ambas as Vereadoras
e o Director Municipal
mas sem poder entrar em todas as instalações
por não se encontrarem as chaves que permitem o acesso às
arrecadações. Ficámos de aguardar pelas chaves (só
foram encontradas em 12 de Setembro - cfr. fax anexo) para saber a utilização
a dar a estas instalações (Poderia haver armazém?
Carpintaria? Ou seriam só escritórios?).
Em visita à Capital efectuada a 4 de Setembro pela Vereadora do
Urbanismo, um engenheiro de estruturas e o Gabinete Técnico do
Bairro Alto, voltei a defender uma evacuação progressiva
do edifício, a permanência de escritórios no prédio
da Rua do Norte - e argumentei com os custos sociais que o abandono de
um edifício daquelas dimensões representará (ocupação
por marginais, degradação acelerada na altura das chuvas,
situação sensível sobretudo na Rua do Norte onde
o quarteirão já quase não tem vida). A Vereadora
manifestou desinteresse por esta minha proposta - tanto mais que, disse,
as obras iriam ter início dentro de dias com o entaipamento de
uma parte, e afirmou que eu próprio e o Arquitecto Pedro Maurício
Borges seríamos chamados para analisar o plano de estruturação
do edifício tendo em vista a discussão - a partir de agora
e de maneira clara - do futuro Centro das Artes.
No dia 5 de Setembro, fui chamado ao Ministério da Cultura para
o final de uma reunião que nessa mesma manhã ocorrera entre
a SEC e a CML. E foi-me proposto instalar-me a prazo num armazém
actualmente ocupado pelo IPPAR nas antigas OGMEE em Belém. Nessa
mesma manhã, foi possível visitar o edifício - que
se encontrava em pior estado do que A CAPITAL, sendo impossível
nele instalar electricidade, dado o perigo de incêndio. Mas, nas
mesmas OGMEE, o senhor Secretário de Estado da Cultura descobriu
outros barracões, afectos, não ao IPPAR, mas ao IPM. E foi-me
dito que seria possível instalarmo-nos aí durante dois anos
a partir de Janeiro de 2002. Estes dois anos corresponderiam às
obras de requalificação n´a Capital, cujo início
deveria ocorrer dentro de dias. Esta visita às OGMEE foi realizada
com as Vereadoras da Cultura e do Urbanismo e com o Director Municipal
da Cultura, assim como perante vários funcionários do MC.
Pedi um dia para voltar a analisar aquelas instalações com
tranquilidade. Consegui marcar essa visita logo para 6ª feira, 6
de Setembro. E, no dia 8, 2ª feira, enviei um fax (cfr. documentação
anexa) ao senhor Secretário de Estado da Cultura com o resultado
da visita que acordáramos e propostas de utilização
e calendarização. Propostas que também comuniquei
à Vereação do Urbanismo: fazer-se uma evacuação
parcial e gradual d´a Capital e utilizarmos o mais cedo possível
um dos pavilhões da OGMEE para receber o material d´a Capital
que não fosse de uso imediato (cfr. fax de 8 de Setembro) até
por causa (cfr. fax de 12 de Setembro) das limitações de
pé-direito das arrecadações de Braço de Prata
que finalmente pudéramos visitar.
A partir daqui, silêncio. Por portas travessas e "fontes bem
informadas", ouço falar de um orçamento de 100 ou 120
mil contos para colocar telhas, instalar electricidade, limpar e desimpedir
os barracões das OGMEE; ouço falar de reuniões do
MC com a CML para se averiguar quem paga o quê; ouço falar
da indisponibilidade de alguns dos actuais usufrutuários desses
barracões em no-los ceder temporariamente; ouço dizer que
houve quem se precipitasse a encher de entulho os barracões que
lhe eram afectos e que estavam totalmente devolutos no dia 6 de Setembro
(quando os visitei com o João Fiadeiro, o Pedro Domingos, o Miguel
Borges, o João Meireles e o Américo Silva). E não
consigo obter respostas nem ser recebido pelo SEC ou pela CML que - cfr.
faxes de 16 e 26 de Setembro - remetem as decisões para reuniões
a ser marcadas um com o outro. A situação d´A CAPITAL
sempre foi complexa, o seu fecho abrupto tornou ainda mais complexo o
processo de resolução, mas não é com certeza
pelo silêncio, o arrastamento, numa lógica de avestruz que
se resolvem os problemas. E ninguém, ao que me parece, quer ser
responsável. Ao que "fontes bem informadas" me dizem,
para não haver uma situação de desigualdade de tratamento
para com os AU em relação a empresas artísticas que
terão idênticos ou mais graves problemas.
E o tempo, inexorável, passa.
Grande parte do nosso material encontra-se ainda n´ A CAPITAL (poltronas,
cenários, arquivos mortos, estantes, estrados
); ainda n´
A CAPITAL procedemos à chegada e saída de cenários
em digressão; ainda pagamos à empresa seguradora e à
empresa de segurança por aquele edifício. Ainda lá
vamos buscar objectos que esquecemos, ainda lá reparamos cenários.
Pois não temos outro sítio para o fazer
A Secretaria de Estado da Cultura remete todas as respostas às
nossas perguntas para reuniões a haver com a CML (cfr. fax de 26
de Setembro). A CML afirma que se trata de uma "solução
morosa devido à sua complexidade" que " não poderá
ser definida sem ponderar as devidas consequências e alternativas
em termos logísticos e financeiros" (cfr. fax de 16 de Setembro).
Mas quanto tempo vai demorar a ponderar? A ponderação não
poderia ter existido entre 10 de Janeiro (data em que foi entregue o projecto)
e 16 de Agosto (data meu último encontro com a CML antes do fecho)?
E até amigos próximos pensam que "está tudo
no bom caminho", que temos inúmeros teatros para apresentar
espectáculos, salas de ensaios, escritórios.
E até há quem me tenha dito que "há males que
vêm por bem".
A
partir de 8 de Outubro
Só em 8 de Outubro foi possível mudarmo-nos para as instalações
de Braço de Prata - onde podemos ficar até 31 de Dezembro
e que respondem apenas às nossas necessidades de escritório
e sala de ensaios.
Às dificuldades em obter chaves (quase um mês para nos serem
entregues), somaram-se dificuldades em assinar um protocolo (um mês),
obtenção de linhas telefónicas e ainda os dias passados
com transportes (efectuados pela CML com a ajuda física dos nossos
actores e técnicos).
E foi então que descobrimos que estas instalações
só têm uma sanita num vão de escada exterior e instalações
eléctricas francamente insuficientes.
Só a 15 de Outubro começámos a ensaiar aqui - e ensaiar
é o nosso trabalho principal.
Entretanto, na CML, as responsabilidades foram passando do Urbanismo -
com quem tratámos inicialmente de tudo inclusivamente e para surpresa
nossa da colocação de espectáculos - para a Cultura.
Ou foram sido esquecidas. Ninguém trata connosco da instalação
dos telefones, por exemplo; nem dos inúmeros transportes de cenários
que somos permanentemente obrigados a fazer entre Braço de Prata,
Palhavã, Belém e vice-versa
Agora, por exemplo, ninguém
nos diz como se processará o pagamento das receitas de A COLECÇÃO
cuja carreira foi prolongada no CCB até 22 de Setembro tendo a
nós sido dito pelo Pelouro do Urbanismo (e "dito" não
quer dizer "escrito"
) que a bilheteira reverteria para
nós; não se sabe como, nem quando, nem se alguém
instalará uma casa de banho em Braço de Prata; nem como
se resolverá o problema de electricidade ( que apresenta perigos
evidentes). Deixámos de conseguir contactar o Pelouro do Urbanismo,
há uma semana "em reunião".
Apesar da extrema diligência de alguns funcionários superiores
da CML com quem contactamos várias vezes por dia pelos mais diversos
e às vezes irrisórios motivos - e cuja gentileza e sentido
da responsabilidade muito nos sensibilizam -, acumulam-se os "assuntos
pendentes" e as "perguntas sem resposta".
Agora
Estamos instalados em Braço de Prata (escritórios e duas
salas de ensaio). O acordo de comodato que celebrámos prevê
a nossa saída a 31 de Dezembro. Para onde?
Sabendo que demorou 3 semanas a arrumar e transportar todo o material,
prevemos que mais demore o que deixámos n´A Capital ou está
espalhado por vários teatros de Lisboa (é 4 vezes mais
).
Entre 5 e 10 de Dezembro (daqui a, aproximadamente, mês e meio)
teremos que começar a fazer mudanças
Ou não
conseguimos mudar.
E temos que preparar a temporada seguinte: o protocolo com o IPAE terá
de ser proposto até 30 de Novembro prevendo programação,
orçamentos e locais, contratos de co-produção, colocação
de espectáculos (uma vez que já não dispomos de sala
própria
), planeamento de actividades, calendarização.
Deveríamos ter passado os meses de Setembro e Outubro a organizar
a programação de 2003; passámo-los a escrever faxes
e a tentar colocar espectáculos previstos para A CAPITAL.
A 5 de Dezembro, estreamos na Culturgest O ENCARREGADO de Harold Pinter
e no CCB recomeçam as representações de TRAIÇÕES
do mesmo autor.
Vale a pena? Vale a pena instalarmos aqui uma casa de banho, resolver
a electricidade? Vale a pena desencaixotar? Vale a pena?
Mas para onde iremos? No dia 2 de Janeiro, começamos, no palco
do São Luiz, a remontagem de O MEU BLACKIE de Arne Sierens.
De uma coisa temos a certeza: não conseguimos fazer mudanças
e contratos e construir cenários e organizar transportes e ensaiar
e planificar actividades e orçamentar tudo ao mesmo tempo.
Para 2003
Temos previsto apresentar O MEU BLACKIE no São Luiz entre 14 e
19 de Janeiro (com início de montagem em 2 de Janeiro) Trata-se
de uma produção inteiramente nova que implica construção
de um cenário. Onde o construiremos? Com que dinheiro? Estamos
quase no início de Novembro
actores e técnicos estão
confirmados, o orçamento feito, a proposta de contrato aprovada
por ambas as partes. Mas ainda aguardamos a assinatura do contrato.
Temos previsto estrear BAAL de Bertolt Brecht em Março numa co-produção
Coimbra Capital da Cultura/Rivoli/São Luiz - onde ensaiamos? Onde
construímos os cenários?
Temos previsto estrear um espectáculo (em co-produção)
no Teatro Taborda em Abril - mas não conseguimos nem reunir com
a Direcção nem obter qualquer confirmação
escrita indispensável para os co-produtores se apresentarem ao
IPAE no próxima 2ª feira, dia 28.
Temos previsto estrear SAN DIEGO de David Greig em Setembro. Ensaiamos
onde? Construímos os cenários onde? Apresentamo-lo onde?
Trata-se de uma co-produção internacional que só
pode ser preparada com tempo e horas: quando?
Temos prevista uma pequena temporada em Viseu (Fevereiro) Poderemos realizá-la?
Temos previsto filmar 4 peças de Harold Pinter para a televisão
( apoio financeiro obtido no concurso à produção
audiovisual do ICAM que nos foi atribuído em acta de 15 de Abril
de 2002) Mas não há contrato. Contávamos com esta
actividade para o ano 2002 em que nos dedicámos à obra de
Harold Pinter. Já não será. Recomeçamos tudo
para o ano?
Temos previsto preparar um documentário sobre Álvaro Lapa
( apoio financeiro obtido no concurso à pesquisa e desenvolvimento
de documentários do ICAM que nos foi atribuído em acta de
27 de Junho de 2002). Mas ainda não temos contrato.
Temos previsto escrever um argumento de longa-metragem a partir de O FIM
OU TENDE MISERICÓRDIA DE NÓS (apoio financeiro obtido no
selectivo à escrita de argumentos para longa-metragem do ICAM que
nos foi atribuído em acta de 17 de Julho de 2002). Mas ainda não
temos contrato.
Temos previsto continuar a co-produzir com a APA (há muitas hipóteses
de poder circular A COLECÇÃO), a Re.Al, a companhia francesa
& So Weiter e o Traverse Theatre. Como? Quando?
Todos nos pedem - e com razão - planos, compromissos, contratos.
Não os podemos fazer com honestidade.
Vale a pena continuar?
Assinámos um contrato de comodato e estamos aqui instalados.
Mas
terá valido a pena?
Não deveríamos antes ter continuado a apresentar espectáculos
n´a Capital contrariando a vontade do Senhor Presidente da Câmara?
Podíamos tê-lo feito. Estávamos dentro da lei, dada
a suspensão provisória, que se mantém. Não
o quisémos fazer porque acreditámos na vontade de resolução
tantas vezes afirmada pela CML e pelo SEC.
Mas valeu a pena acreditar?
O que é que estão a fazer connosco? O que é que aconteceu
com as OGMEE? Com o SEC que não responde? Com as reuniões
solicitadas e que não são marcadas?
Teremos peste? Ou estamos mesmo a ser "adiados para outro século"?
As promessas que nos fizeram em Setembro resvalarão para a valeta
como as que - em sentido contrário e essas por escrito - nos foram
feitas em Julho e Agosto?
Que se passa para que haja quem me felicite por "se ter resolvido
tudo"?
Tudo o quê?
A situação económica dos Artistas Unidos é
de catástrofe e para ela temos chamado repetidas vezes a atenção
do MC desde finais de 2001.
Nenhum dos planos de actividades relacionadas com o ICAM pôde ainda
avançar - e há projectos que prevíramos realizar
este ano, foram entregues em 2001 (caso das 4 peças para televisão
de Harold Pinter) e aprovados em Abril!
Estamos paralisados financeiramente e até agora não obtivemos
crédito bonificado junto do IPAE (
por não podermos
apresentar documento que prove a forma de arrendamento em que nos encontramos
).
E esta grave situação económica deve-se a termos
investido no edifício d´a Capital muito dinheiro em reparações,
requalificação e pessoal exclusivamente contratado para
se ocupar do prédio. Deve-se ao adiamento de vários acordos
como por exemplo com o ICAM. Esta situação foi do conhecimento
do MC, do IPAE e da CML e para ela três Ministros disseram que iriam
encontrar uma compensação (devida às verbas por nós
investidas nas reparações d´a Capital) e um Secretário
de Estado do actual executivo declarou ir envidar esforços junto
da CML para que esse investimento fosse coberto por esta.
Não sabemos qual o destino a dar aos nossos bens e onde colocá-los.
Não sabemos onde trabalhar.
Não pretendemos que a Câmara nos ofereça o que não
dá a outros. Mas como podemos esquecer o fax de 9 de Julho - em
que acreditámos? Como podemos esquecer as ofertas da Vereadora
do Urbanismo na semana seguinte à evacuação? Como
podemos esquecer as reuniões com calendarização e
análise de orçamentos realizadas n´a Capital com o
SEC e a CML?
Como preparar uma temporada 2003 que recomporia a crise financeira (através
de apalavradas co-produções que todos os dias se adiam,
anulam, contradizem, das quais neste momento quase não nos podemos
ocupar? Como podemos preparar os filmes a cujo apoio concorremos se, durante
todo este ano, foi sendo adiado o financiamento ao cinema)?
Como podemos continuar?
Não gostamos nada de ser tratados assim.
E achamos que ninguém tem o direito de tratar assim - pelo silêncio
e pelo permanente lavar de mãos - criadores a que o próprio
Estado reconhece mérito, pois, em concurso que foi público
e acta homologada, nos financia.
E não somos nós que estamos a esbanjar dinheiros públicos.
O dinheiro que estamos a gastar - para além das nossas possibilidades
- está a ser mal empregue. A pagar vencimentos a actores para serem
motoristas ou moços de recados, a pagar actores para serem carregadores,
cenógrafos para empacotar/desempacotar, para eu passar o meu tempo
a escrever cartas e mails e faxes que caem no terrível silêncio
do Estado.
O nosso trabalho é ensaiar e apresentar espectáculos.
Para esse trabalho concorremos a um apoio financeiro. Que nos foi atribuído
pelo MC. Estamos a fazê-lo mal, com prejuízo artístico
e económico evidente, comprometendo trabalho de terceiros e entrando
num atabalhoamento incompatível com as nossas exigências.
Pela primeira vez em seis anos de actividade, não sabemos em Novembro
nem em que datas nem que peças nem onde iremos apresentar espectáculos
durante o próximo ano.
Não sabemos se podemos assinar os contratos que preparámos
até Agosto e deveriam estar agora prontos a assinar.
Não gostamos de trabalhar assim, nunca o fizémos.
Mas não temos resposta a esta única pergunta: como podemos
cumprir aquilo que queremos e nos comprometemos se nos empatam com promessas
e elas caem ao voltar de cada esquina?
Jorge
Silva Melo
24 de Outubro de 2002
Ps.:
Ontem ( 24 de Outubro) e hoje ( 25 de Outubro)
A meio da tarde de ontem, 24 de Outubro, recebemos um telefonema do Gabinete
Técnico do Bairro Alto para marcar uma reunião para hoje
pelas 10.30 n´A Capital. Essa reunião destina-se a preparar
a evacuação dos entulhos e instalação do quadro
eléctrico (mas era disto precisamente que estávamos a tratar
em 21 de Agosto! cfr. fax anexo) e a nossa comparência era solicitada
para indicar qual o material lá existente que não é
entulho.
A visita efectuou-se e foi-nos solicitado:
a. A entrega das chaves do edifício;
b. A arrumação do material todo no rés-do-chão
(não cabe);
c. A presença de alguém no próximo dia 30, início
pretendido das obras que consistiriam na remoção de entulhos;
remoção da instalação eléctrica , retirada
da água dos pisos superiores e emparedamento de algumas saídas,
montagem de 1 coluna de electricidade para instalar 1 ponto de luz por
andar.
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