Uma história tão confusa

Artistas Unidos entre Herodes e Pilatos

Desde a tomada de posse da nova CML até Julho 2002
Logo a 10 de Janeiro de 2002, no primeiro dia após a tomada de posse do Dr. Pedro Santana Lopes como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entregámos, na recepção dos Paços do Concelho, o projecto de CENTRO DE ARTES DA CAPITAL, com cópia para a Vereadora da Cultura.
Poucas semanas depois, reunimos com a Vereadora para analisar essa proposta. E, da análise, surgiu uma vontade clara de deitar mãos à obra e de verificar os muitos problemas que até então tinham ficado por resolver. Foi, assim, que fomos mantendo contactos regulares com a Drª Maria Manuel Pinto Barbosa e, a partir de certa altura, também com o Dr. José Monterroso Teixeira.
Igualmente entregámos o (processo a Sua Ex° o Senhor Ministro da Cultura), em 8 de Abril, na manhã a seguir à tomada de posse do executivo. E reunimos, em finais de Maio, com o Secretário de Estado da Cultura, Dr. José Amaral Lopes, a quem pudémos expor os nossos problemas, mesmo aqueles que nada têm a ver com a cedência do edifício ou sua recuperação.
Estas reuniões ganharam mais precisão após a visita À CAPITAL do Presidente da Câmara - em 4 de Junho - acompanhado do Senhor Vice-Presidente, da Senhora Vereadora e do Director Municipal da Cultura. A partir desta data, tudo parecia delinear-se num sentido inequívoco.
Houve, por esta altura, uma reunião longa e bastante pormenorizada n´ A CAPITAL com o Secretário de Estado da Cultura, Dr. José Amaral Lopes, a Vereadora Drª Maria Manuel Pinto Barbosa e o Director Municipal da Cultura, Dr. José de Monterroso Teixeira. E todos acordámos em que o primeiro passo seria retomarmos um plano de requalificação já entregue anteriormente ao MC no sentido de se realizarem algumas intervenções rápidas no edifício (instalação de quadro eléctrico, sinalização de saídas, remoção de entulhos etc - cfr. documentação anexa) que permitissem a continuação da utilização d´A Capital até à definição - que seria conjunta entre a CML e o MC - do interesse e viabilidade da nossa proposta. Esse plano, a que passámos a chamar "cirúrgico", tinha como objectivo, por um lado, impedir a degradação do edifício e os custos da sua conservação por nossa parte e de, por outro, permitir a temporada 2002/3. E em todas estas reuniões ficou clara uma vontade de estudar o projecto a longo prazo, de que este plano "cirúrgico" seria um primeiro passo.

Quase em Agosto
Em 5 de Julho, a EDP veio cortar a electricidade (cfr. documento anexo) por ter passado um prazo acordado com a CML ( esta situação nunca fora resolvida e esta ocorrência era regular). Contactada a Drª Maria Manuel Pinto Barbosa, foi-nos dito que a CML renovaria o acordo com a EDP. A 9 de Julho, recebemos cópia de um fax nessa data enviado pela Vereação da Cultura à Directora da DSEM em que se solicita "que sejam tomadas as providências para que não se efectue o corte de energia por um período de um mês, momento em que esperamos estejam reunidas as condições para a regularização da cedência do imóvel aos Artistas Unidos" (cfr. documento anexo)

Em Agosto
Começaram, nesta altura, inúmeras visitas ao edifício, coordenadas, ora pelo Gabinete Técnico do Bairro Alto, ora pelo Pelouro da Cultura. A última foi ainda em meados de Agosto organizada pela Drª Lucinda Lopes acompanhada pelo Sr. César Gomes e por bombeiros que vieram tratar do mapa da colocação dos extintores, sinalização de emergência, plano de remoção de entulhos, etc. sendo-nos repetidas vezes dito que deveríamos actuar com rapidez para que a temporada pudesse abrir normalmente no dia 5 de Setembro (cfr..faxes de 14 e 21 de Agosto).
Por outro lado, realizaram-se regulares reuniões e telefonemas com o Dr. Monterroso Teixeira, Director Municipal da Cultura. A 16 de Agosto, a reunião consistiu na análise, já bastante pormenorizada, de alguns orçamentos apresentados dentro do plano de "requalificação imediata" e no constatar da desactualização de outros que nos comprometemos a apresentar quando o Dr. Monterroso Teixeira regressasse de uma viagem, uma semana depois. E previmos um encontro para os últimos dias de Agosto com a CML e o Arq. Pedro Maurício Borges (autor do esboço de projecto em Fevereiro de 2000). E foram-nos solicitados mais orçamentos para pequenas reparações nos pontos frágeis dos telhados - reparações que, por demasiado dispendiosas, não tínhamos sequer contemplado na nossa proposta de "intervenção cirúrgica". Mas - foi a conclusão a que, nesse dia, chegámos -, talvez cortando noutros itens menos relevantes (ex.: casas de banho e equipamento) pudéssemos investir em reparações mais profundas nos pontos mais debilitados do telhado.
No fim da tarde de 3ª feira, dia 27 de Agosto, recebemos um telefonema da Vereadora convocando para uma reunião no dia a seguir, que, no entanto, não se sabia a que horas poderia ter lugar. Informámos que só tínhamos uma hora na qual a referida reunião seria impossível (devido a consulta médica prevista para as 12h) mas que bastaria um telefonema para comparecermos na CML passada meia-hora. Houve, ainda, um outro telefonema já na tarde de 4ª feira, 28 de Agosto, mas, ao que parece, a sessão da Câmara desse dia prolongou-se, pelo que não foi possível o encontro.
Na 6ª feira, dia 29, telefona o Dr. Monterroso Teixeira sugerindo duas horas diferentes para o encontro (15.30h ou 18h). As 15.30h, a reunião teve início sem a presença da Vereadora. O Dr. Monterroso Teixeira avisou-me que o Presidente despachara no sentido do encerramento do local para espectáculos. E perguntou-me se não seria possível mudarmo-nos para o Palácio Benagazil perto do Aeroporto que eu não conhecia. A Drª Maria Manuel Pinto Barbosa chegou e informou-me então que o Presidente tinha despachado o encerramento do local ao público e ao funcionamento. Sugeri então que deveríamos fasear o encerramento, tal como acabara de propor ao Dr. Monterroso Teixeira e que não deveríamos pôr em causa a estreia, a 5 de Setembro de MOUCHETTE de Arne Sierens, tanto mais que este espectáculo ocorreria no rés-do-chão, que era, na opinião de todos, o espaço com menos perigo do edifício, dado possuir cinco saídas. Ficou combinado que eu iria para casa preparar um mail a ser enviado ainda nessa tarde com esta contra-proposta. Ao entrar para o elevador do mesmo piso, toca o meu telemóvel - e perco a rede ao fecharem-se as portas. Já na rua, ligo para a Capital e sou informado que a polícia está nos locais com uma notificação que mandava encerrar de imediato o local.
Depois disto, não consegui voltar a contactar a Câmara (a Vereadora deslocara-se ao Chiado onde havia um encontro com Sua Exa, o Senhor Primeiro Ministro) - a não ser à meia-noite quando, num debate da SIC-NOTÍCIAS, me encontrei com a Vereadora do Urbanismo, Drª Eduarda Napoleão, que aí claramente se responsabilizou pelo parecer dado que originou o encerramento das instalações. Logo após o debate, a Vereadora esperou por mim e discutimos várias hipóteses de solução. No dia seguinte, 6ª feira, dia 30 de Agosto, a Vereadora Eduarda Napoleão telefonou-me várias vezes e, ao fim da tarde, combinámos um encontro para segunda-feira, 2 de Setembro, em que visitarímos o Palácio Benagazil e planearíamos mudanças. A Vereadora sugeria-me então vários locais para a apresentação dos espectáculos "destelhados" - locais que iam do Pavilhão do Futuro na Expo à Estufa Fria, ao CCB, ao Teatro Vasco Santana, uma das salas do Cinema São Jorge ou o Teatro Taborda. Enviei, nesse dia mesmo, uma listagem das características técnicas da realização dos espectáculos assim como de espaços adequados para a apresentação dos mesmos ( faxes de 30 de Agosto e 1 de Setembro) que o Pelouro do Urbanismo se comprometeu a contactar directamente.
Nessa mesma 6ª feira, a polícia municipal entrou no edifício e deu ordem de prisão à Directora de Produção por crime de desobediência (essa funcionária assinara a notificação da véspera). O incidente foi resolvido com uns telefonemas para o Comando-Geral - e não houve prisão.
Nesse mesmo dia, requeremos junto do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, e nos termos do artigo 77º n.º 1 alínea b) da Lei de Processo nos Tribunais Administrativos (LPTA) um pedido de suspensão de eficácia do Despacho de 27 de Agosto de 2002 de Sua Exª o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Na 3ª feira, dia 3 de Setembro, pela manhã, telefona-me a Drª Maria Manuel Pinto Barbosa dizendo que o estado de conservação e segurança do palácio Benagazil era "pior do que a Capital". E, no dia seguinte, foi-nos sugerido visitar de imediato uma parte do edifício de Braço de Prata ( R. Fernando Palha, 26 rc esquerdo). Assim o fizemos e acompanhados por ambas as Vereadoras e o Director Municipal… mas sem poder entrar em todas as instalações por não se encontrarem as chaves que permitem o acesso às arrecadações. Ficámos de aguardar pelas chaves (só foram encontradas em 12 de Setembro - cfr. fax anexo) para saber a utilização a dar a estas instalações (Poderia haver armazém? Carpintaria? Ou seriam só escritórios?).
Em visita à Capital efectuada a 4 de Setembro pela Vereadora do Urbanismo, um engenheiro de estruturas e o Gabinete Técnico do Bairro Alto, voltei a defender uma evacuação progressiva do edifício, a permanência de escritórios no prédio da Rua do Norte - e argumentei com os custos sociais que o abandono de um edifício daquelas dimensões representará (ocupação por marginais, degradação acelerada na altura das chuvas, situação sensível sobretudo na Rua do Norte onde o quarteirão já quase não tem vida). A Vereadora manifestou desinteresse por esta minha proposta - tanto mais que, disse, as obras iriam ter início dentro de dias com o entaipamento de uma parte, e afirmou que eu próprio e o Arquitecto Pedro Maurício Borges seríamos chamados para analisar o plano de estruturação do edifício tendo em vista a discussão - a partir de agora e de maneira clara - do futuro Centro das Artes.
No dia 5 de Setembro, fui chamado ao Ministério da Cultura para o final de uma reunião que nessa mesma manhã ocorrera entre a SEC e a CML. E foi-me proposto instalar-me a prazo num armazém actualmente ocupado pelo IPPAR nas antigas OGMEE em Belém. Nessa mesma manhã, foi possível visitar o edifício - que se encontrava em pior estado do que A CAPITAL, sendo impossível nele instalar electricidade, dado o perigo de incêndio. Mas, nas mesmas OGMEE, o senhor Secretário de Estado da Cultura descobriu outros barracões, afectos, não ao IPPAR, mas ao IPM. E foi-me dito que seria possível instalarmo-nos aí durante dois anos a partir de Janeiro de 2002. Estes dois anos corresponderiam às obras de requalificação n´a Capital, cujo início deveria ocorrer dentro de dias. Esta visita às OGMEE foi realizada com as Vereadoras da Cultura e do Urbanismo e com o Director Municipal da Cultura, assim como perante vários funcionários do MC.
Pedi um dia para voltar a analisar aquelas instalações com tranquilidade. Consegui marcar essa visita logo para 6ª feira, 6 de Setembro. E, no dia 8, 2ª feira, enviei um fax (cfr. documentação anexa) ao senhor Secretário de Estado da Cultura com o resultado da visita que acordáramos e propostas de utilização e calendarização. Propostas que também comuniquei à Vereação do Urbanismo: fazer-se uma evacuação parcial e gradual d´a Capital e utilizarmos o mais cedo possível um dos pavilhões da OGMEE para receber o material d´a Capital que não fosse de uso imediato (cfr. fax de 8 de Setembro) até por causa (cfr. fax de 12 de Setembro) das limitações de pé-direito das arrecadações de Braço de Prata que finalmente pudéramos visitar.
A partir daqui, silêncio. Por portas travessas e "fontes bem informadas", ouço falar de um orçamento de 100 ou 120 mil contos para colocar telhas, instalar electricidade, limpar e desimpedir os barracões das OGMEE; ouço falar de reuniões do MC com a CML para se averiguar quem paga o quê; ouço falar da indisponibilidade de alguns dos actuais usufrutuários desses barracões em no-los ceder temporariamente; ouço dizer que houve quem se precipitasse a encher de entulho os barracões que lhe eram afectos e que estavam totalmente devolutos no dia 6 de Setembro (quando os visitei com o João Fiadeiro, o Pedro Domingos, o Miguel Borges, o João Meireles e o Américo Silva). E não consigo obter respostas nem ser recebido pelo SEC ou pela CML que - cfr. faxes de 16 e 26 de Setembro - remetem as decisões para reuniões a ser marcadas um com o outro. A situação d´A CAPITAL sempre foi complexa, o seu fecho abrupto tornou ainda mais complexo o processo de resolução, mas não é com certeza pelo silêncio, o arrastamento, numa lógica de avestruz que se resolvem os problemas. E ninguém, ao que me parece, quer ser responsável. Ao que "fontes bem informadas" me dizem, para não haver uma situação de desigualdade de tratamento para com os AU em relação a empresas artísticas que terão idênticos ou mais graves problemas.
E o tempo, inexorável, passa.
Grande parte do nosso material encontra-se ainda n´ A CAPITAL (poltronas, cenários, arquivos mortos, estantes, estrados…); ainda n´ A CAPITAL procedemos à chegada e saída de cenários em digressão; ainda pagamos à empresa seguradora e à empresa de segurança por aquele edifício. Ainda lá vamos buscar objectos que esquecemos, ainda lá reparamos cenários. Pois não temos outro sítio para o fazer…
A Secretaria de Estado da Cultura remete todas as respostas às nossas perguntas para reuniões a haver com a CML (cfr. fax de 26 de Setembro). A CML afirma que se trata de uma "solução morosa devido à sua complexidade" que " não poderá ser definida sem ponderar as devidas consequências e alternativas em termos logísticos e financeiros" (cfr. fax de 16 de Setembro).
Mas quanto tempo vai demorar a ponderar? A ponderação não poderia ter existido entre 10 de Janeiro (data em que foi entregue o projecto) e 16 de Agosto (data meu último encontro com a CML antes do fecho)?
E até amigos próximos pensam que "está tudo no bom caminho", que temos inúmeros teatros para apresentar espectáculos, salas de ensaios, escritórios.
E até há quem me tenha dito que "há males que vêm por bem".

A partir de 8 de Outubro
Só em 8 de Outubro foi possível mudarmo-nos para as instalações de Braço de Prata - onde podemos ficar até 31 de Dezembro e que respondem apenas às nossas necessidades de escritório e sala de ensaios.
Às dificuldades em obter chaves (quase um mês para nos serem entregues), somaram-se dificuldades em assinar um protocolo (um mês), obtenção de linhas telefónicas e ainda os dias passados com transportes (efectuados pela CML com a ajuda física dos nossos actores e técnicos).
E foi então que descobrimos que estas instalações só têm uma sanita num vão de escada exterior e instalações eléctricas francamente insuficientes.
Só a 15 de Outubro começámos a ensaiar aqui - e ensaiar é o nosso trabalho principal.
Entretanto, na CML, as responsabilidades foram passando do Urbanismo - com quem tratámos inicialmente de tudo inclusivamente e para surpresa nossa da colocação de espectáculos - para a Cultura. Ou foram sido esquecidas. Ninguém trata connosco da instalação dos telefones, por exemplo; nem dos inúmeros transportes de cenários que somos permanentemente obrigados a fazer entre Braço de Prata, Palhavã, Belém e vice-versa… Agora, por exemplo, ninguém nos diz como se processará o pagamento das receitas de A COLECÇÃO cuja carreira foi prolongada no CCB até 22 de Setembro tendo a nós sido dito pelo Pelouro do Urbanismo (e "dito" não quer dizer "escrito"…) que a bilheteira reverteria para nós; não se sabe como, nem quando, nem se alguém instalará uma casa de banho em Braço de Prata; nem como se resolverá o problema de electricidade ( que apresenta perigos evidentes). Deixámos de conseguir contactar o Pelouro do Urbanismo, há uma semana "em reunião".
Apesar da extrema diligência de alguns funcionários superiores da CML com quem contactamos várias vezes por dia pelos mais diversos e às vezes irrisórios motivos - e cuja gentileza e sentido da responsabilidade muito nos sensibilizam -, acumulam-se os "assuntos pendentes" e as "perguntas sem resposta".

Agora
Estamos instalados em Braço de Prata (escritórios e duas salas de ensaio). O acordo de comodato que celebrámos prevê a nossa saída a 31 de Dezembro. Para onde?
Sabendo que demorou 3 semanas a arrumar e transportar todo o material, prevemos que mais demore o que deixámos n´A Capital ou está espalhado por vários teatros de Lisboa (é 4 vezes mais…). Entre 5 e 10 de Dezembro (daqui a, aproximadamente, mês e meio) teremos que começar a fazer mudanças… Ou não conseguimos mudar.
E temos que preparar a temporada seguinte: o protocolo com o IPAE terá de ser proposto até 30 de Novembro prevendo programação, orçamentos e locais, contratos de co-produção, colocação de espectáculos (uma vez que já não dispomos de sala própria…), planeamento de actividades, calendarização. Deveríamos ter passado os meses de Setembro e Outubro a organizar a programação de 2003; passámo-los a escrever faxes e a tentar colocar espectáculos previstos para A CAPITAL.
A 5 de Dezembro, estreamos na Culturgest O ENCARREGADO de Harold Pinter e no CCB recomeçam as representações de TRAIÇÕES do mesmo autor.
Vale a pena? Vale a pena instalarmos aqui uma casa de banho, resolver a electricidade? Vale a pena desencaixotar? Vale a pena?
Mas para onde iremos? No dia 2 de Janeiro, começamos, no palco do São Luiz, a remontagem de O MEU BLACKIE de Arne Sierens.
De uma coisa temos a certeza: não conseguimos fazer mudanças e contratos e construir cenários e organizar transportes e ensaiar e planificar actividades e orçamentar tudo ao mesmo tempo.


Para 2003
Temos previsto apresentar O MEU BLACKIE no São Luiz entre 14 e 19 de Janeiro (com início de montagem em 2 de Janeiro) Trata-se de uma produção inteiramente nova que implica construção de um cenário. Onde o construiremos? Com que dinheiro? Estamos quase no início de Novembro… actores e técnicos estão confirmados, o orçamento feito, a proposta de contrato aprovada por ambas as partes. Mas ainda aguardamos a assinatura do contrato.
Temos previsto estrear BAAL de Bertolt Brecht em Março numa co-produção Coimbra Capital da Cultura/Rivoli/São Luiz - onde ensaiamos? Onde construímos os cenários?
Temos previsto estrear um espectáculo (em co-produção) no Teatro Taborda em Abril - mas não conseguimos nem reunir com a Direcção nem obter qualquer confirmação escrita indispensável para os co-produtores se apresentarem ao IPAE no próxima 2ª feira, dia 28.
Temos previsto estrear SAN DIEGO de David Greig em Setembro. Ensaiamos onde? Construímos os cenários onde? Apresentamo-lo onde? Trata-se de uma co-produção internacional que só pode ser preparada com tempo e horas: quando?
Temos prevista uma pequena temporada em Viseu (Fevereiro) Poderemos realizá-la?
Temos previsto filmar 4 peças de Harold Pinter para a televisão ( apoio financeiro obtido no concurso à produção audiovisual do ICAM que nos foi atribuído em acta de 15 de Abril de 2002) Mas não há contrato. Contávamos com esta actividade para o ano 2002 em que nos dedicámos à obra de Harold Pinter. Já não será. Recomeçamos tudo para o ano?
Temos previsto preparar um documentário sobre Álvaro Lapa ( apoio financeiro obtido no concurso à pesquisa e desenvolvimento de documentários do ICAM que nos foi atribuído em acta de 27 de Junho de 2002). Mas ainda não temos contrato.
Temos previsto escrever um argumento de longa-metragem a partir de O FIM OU TENDE MISERICÓRDIA DE NÓS (apoio financeiro obtido no selectivo à escrita de argumentos para longa-metragem do ICAM que nos foi atribuído em acta de 17 de Julho de 2002). Mas ainda não temos contrato.
Temos previsto continuar a co-produzir com a APA (há muitas hipóteses de poder circular A COLECÇÃO), a Re.Al, a companhia francesa & So Weiter e o Traverse Theatre. Como? Quando?
Todos nos pedem - e com razão - planos, compromissos, contratos. Não os podemos fazer com honestidade.
Vale a pena continuar?
Assinámos um contrato de comodato e estamos aqui instalados.
Mas… terá valido a pena?
Não deveríamos antes ter continuado a apresentar espectáculos n´a Capital contrariando a vontade do Senhor Presidente da Câmara? Podíamos tê-lo feito. Estávamos dentro da lei, dada a suspensão provisória, que se mantém. Não o quisémos fazer porque acreditámos na vontade de resolução tantas vezes afirmada pela CML e pelo SEC.
Mas valeu a pena acreditar?
O que é que estão a fazer connosco? O que é que aconteceu com as OGMEE? Com o SEC que não responde? Com as reuniões solicitadas e que não são marcadas?
Teremos peste? Ou estamos mesmo a ser "adiados para outro século"?
As promessas que nos fizeram em Setembro resvalarão para a valeta como as que - em sentido contrário e essas por escrito - nos foram feitas em Julho e Agosto?
Que se passa para que haja quem me felicite por "se ter resolvido tudo"?
Tudo o quê?
A situação económica dos Artistas Unidos é de catástrofe e para ela temos chamado repetidas vezes a atenção do MC desde finais de 2001.
Nenhum dos planos de actividades relacionadas com o ICAM pôde ainda avançar - e há projectos que prevíramos realizar este ano, foram entregues em 2001 (caso das 4 peças para televisão de Harold Pinter) e aprovados em Abril!
Estamos paralisados financeiramente e até agora não obtivemos crédito bonificado junto do IPAE (…por não podermos apresentar documento que prove a forma de arrendamento em que nos encontramos ).
E esta grave situação económica deve-se a termos investido no edifício d´a Capital muito dinheiro em reparações, requalificação e pessoal exclusivamente contratado para se ocupar do prédio. Deve-se ao adiamento de vários acordos como por exemplo com o ICAM. Esta situação foi do conhecimento do MC, do IPAE e da CML e para ela três Ministros disseram que iriam encontrar uma compensação (devida às verbas por nós investidas nas reparações d´a Capital) e um Secretário de Estado do actual executivo declarou ir envidar esforços junto da CML para que esse investimento fosse coberto por esta.
Não sabemos qual o destino a dar aos nossos bens e onde colocá-los. Não sabemos onde trabalhar.
Não pretendemos que a Câmara nos ofereça o que não dá a outros. Mas como podemos esquecer o fax de 9 de Julho - em que acreditámos? Como podemos esquecer as ofertas da Vereadora do Urbanismo na semana seguinte à evacuação? Como podemos esquecer as reuniões com calendarização e análise de orçamentos realizadas n´a Capital com o SEC e a CML?
Como preparar uma temporada 2003 que recomporia a crise financeira (através de apalavradas co-produções que todos os dias se adiam, anulam, contradizem, das quais neste momento quase não nos podemos ocupar? Como podemos preparar os filmes a cujo apoio concorremos se, durante todo este ano, foi sendo adiado o financiamento ao cinema)?
Como podemos continuar?
Não gostamos nada de ser tratados assim.
E achamos que ninguém tem o direito de tratar assim - pelo silêncio e pelo permanente lavar de mãos - criadores a que o próprio Estado reconhece mérito, pois, em concurso que foi público e acta homologada, nos financia.
E não somos nós que estamos a esbanjar dinheiros públicos. O dinheiro que estamos a gastar - para além das nossas possibilidades - está a ser mal empregue. A pagar vencimentos a actores para serem motoristas ou moços de recados, a pagar actores para serem carregadores, cenógrafos para empacotar/desempacotar, para eu passar o meu tempo a escrever cartas e mails e faxes que caem no terrível silêncio do Estado.
O nosso trabalho é ensaiar e apresentar espectáculos.
Para esse trabalho concorremos a um apoio financeiro. Que nos foi atribuído pelo MC. Estamos a fazê-lo mal, com prejuízo artístico e económico evidente, comprometendo trabalho de terceiros e entrando num atabalhoamento incompatível com as nossas exigências.
Pela primeira vez em seis anos de actividade, não sabemos em Novembro nem em que datas nem que peças nem onde iremos apresentar espectáculos durante o próximo ano.
Não sabemos se podemos assinar os contratos que preparámos até Agosto e deveriam estar agora prontos a assinar.
Não gostamos de trabalhar assim, nunca o fizémos.
Mas não temos resposta a esta única pergunta: como podemos cumprir aquilo que queremos e nos comprometemos se nos empatam com promessas e elas caem ao voltar de cada esquina?

Jorge Silva Melo
24 de Outubro de 2002

Ps.: Ontem ( 24 de Outubro) e hoje ( 25 de Outubro)
A meio da tarde de ontem, 24 de Outubro, recebemos um telefonema do Gabinete Técnico do Bairro Alto para marcar uma reunião para hoje pelas 10.30 n´A Capital. Essa reunião destina-se a preparar a evacuação dos entulhos e instalação do quadro eléctrico (mas era disto precisamente que estávamos a tratar em 21 de Agosto! cfr. fax anexo) e a nossa comparência era solicitada para indicar qual o material lá existente que não é entulho.
A visita efectuou-se e foi-nos solicitado:
a. A entrega das chaves do edifício;
b. A arrumação do material todo no rés-do-chão (não cabe);
c. A presença de alguém no próximo dia 30, início pretendido das obras que consistiriam na remoção de entulhos; remoção da instalação eléctrica , retirada da água dos pisos superiores e emparedamento de algumas saídas, montagem de 1 coluna de electricidade para instalar 1 ponto de luz por andar.