HEDDA de José Maria Vieira Mendes a partir de Hedda Gabler de Henrik Ibsen

hedda_eHEDDA de José Maria Vieira Mendes a partir de Hedda Gabler de Henrik Ibsen
Com Maria João Luís, Lia Gama, António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Cândido Ferreira e Rita Brütt Pianista Inês Mesquita Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos Pintura do Cenário Guilherme Lopes Alves Construção do cenário João Prazeres e Luís Carvalho Assistência de Figurinos Isabel Boavida Assistência de Encenação João Miguel Rodrigues Encenação Jorge Silva Melo
Co-produção Artistas Unidos / S. Luiz Teatro Municipal

No Teatro Municipal de São Luiz de 16 de Setembro a 17 de Outubro de 2010
No Teatro Nacional São João de 20 a 24 de Outubro de 2010

Chegou a vez de voltarmos a Ibsen, pedra basilar de tanto teatro contemporâneo. E não queremos apenas refazê-lo, mas sim reformular os dados do seu teatro. Convidámos José Maria Vieira Mendes (autor que revelámos em 1998 e que tem desenvolvido uma actividade incessante como dramaturgo desde então com mais de 10 peças representadas) para repensar a dramaturgia de Ibsen. E repensar a ansiedade de “Hedda Gabler”.

REESCREVER HEDDA

A proposta que me é feita enquanto dramaturgo deste projecto é a de uma reescrita da Hedda Gabler. Não uma reescrita que pretenda uma actualização (coisa que aliás não sei muito bem o que seja…), mas que se ofereça como leitura minha, hoje, do texto do Ibsen. Não se pretende pois tornar o texto de Ibsen legível para uma sociedade contemporânea, recorrendo a uma transposição de temáticas e linguagem e estilos para os tempos de hoje, mas sim distanciar-nos de leituras mais casualistas que procuram uma navegação sociológica pelos tempos de hoje e aproximar-nos daquilo que consideramos ser intelectualmente mais honesto, ou seja, perseguir as ideias que atravessam os tempos, que sempre podem existir.
Escrever como leitor é pois provavelmente o objectivo principal a atingir. Como se a figura do leitor fosse a única figura a acompanhar fielmente a passagem do tempo sobre a obra de Ibsen. Como leio hoje o Ibsen e esta peça em particular e o que é que eu, enquanto dramaturgo português com dilemas de escrita situados num tempo e biografia particulares, leio nesta peça? E já agora, o que é isso de escrever como leitura?

hedda_fO teatro de hoje, ultrapassado um século XX de importantes movimentos de escrita e encenação, tem uma vida bem diferente daquela que acompanhou Ibsen. E por isso um dos primeiros impactos, para mim enquanto leitor que escreve, é o desfazamento de um naturalismo ibseniano difícil de suportar ou transportar. Provavelmente por tiques e vontades pessoais que me têm afastado do género, mas por outro também por ser uma espécie de obstáculo insrito no texto de Ibsen, que quanto a mim impede uma tentativa de actualização. Não funciona (ou não satisfaz), do meu ponto de vista, a escolha de um computador ou pen para substituir o manuscrito queimado. Não me parece interessante a substituição de uma criada a anunciar entradas por uma campainha… E se, apesar de tudo, se consegue trabalhar com estas marcas, disfarçando-as, secundarizando-as, já muitos dos conteúdos, carimbados por uma época com direitos e garantias diferentes dos de hoje, dificilmente se tornam maleáveis. Não chega o transporte de um feminismo de final de século para um movimento idêntico de princípio de um outro século. É difícil suportar a relação do casal recém-casado num espectáculo que se queira “actual”. Etc, etc.
Curiosamente, desaparecendo a preocupação de actualização ou transporte para o tempo e sociedade contemporâneos, consegue-se desmpoeirar a leitura e rapidamente a escrita se concentra nas personagens enquanto espécie animal com preocupações atemporais. O que interessa nesta Hedda? O que interessa no casal? O que interessa no terceiro elemento, esta espécie de soldado regressado da guerra? E o que pode interessar na Thea Elvsted? É aqui que se concentra o trabalho de escrita. E não tanto procurando psicologias, traumas de passado, questões edipianas, mas sobretudo focando-nos em ideologias, problemas intelectuais, pensamentos sobre a vida, sobre a escrita e sobre a morte.
Passamos pois pelos mesmos patamares em que Ibsen se apoiou, aproveitando os dois revólveres, o valioso e prometedor manuscrito, o casal recém-casado, o provável concorrente, o velho juiz com interesses malsãos, e uma jovem que abandona o marido por um amor. Mantemos também a velha tia Juliana, agora apenas em duas aparições mais longas, com um discurso de sábia confusa ou sibilina, pintalgado com piadas, inversões e trocas. Reforçamos o isolamento montanhoso de Eilert Lovborg, acentuamos uma diferença de idade relevante entre Hedda e Thea e acentuamos um ponto de vista para a narração, como se nesta nossa Hedda Gabler tudo viesse da cabeça da protagonista. Uma mulher, numa sala onde entram e saem as pessoas da sua vida, a rejeitar esta realidade e a caminhar pausadamente e decididamente para o suicídio.
E assim insistimos nesta nossa Hedda Gabler num texto que discute as utopias, que pensa as ideologias e que vai atrás dos fundamentalismos. Olhar para Hedda Gabler como uma mulher à procura de um fundamento, de arma em punho, pronta a defender ou seguir uma ideia até ao fim, querendo levar com ela todos os que a rodeiam e saindo vencedora derrotada, numa morte paradoxal que funciona como uma coroa de folhas de videira na cabeça de quem perde. Uma mulher determinada a viver uma impossibilidade ou, roubando as palavras do filósofo alemão contemporâneo Marcus Steinweg, determinada a viver um “sonho com valor de verdade”. E uma mulher que arrasta todos os que vivem em seu redor, questionando-os, desequilibrando-os, pondo-os em causa, como aliás a arte é e deve ser capaz de fazer. Lê-se deste modo a Hedda Gabler também como um dilema artístico. Como se a discussão girasse em redor de uma vontade de arte que contém o seu suicídio. Uma vontade que quer ser mais do que pensamento e que exige uma passagem ao acto que se vê concretizada em dois revólveres.

Esta é, quanto a nós, a “actualização” possível, ou seja, não uma aproximação a um tempo ou geografia, mas uma aproximação a um pensamento, o pensamento de um dramaturgo que também é o pensamento de um teatro ou da arte hoje (e sempre?). O pensamento que se faz no gesto de leitura e que, concretizado em escrita, projecta as dificuldades de um leitor, as omissões, as escolhas e as interpretações.
José Maria Vieira Mendes

Teatro da Politécnica

monica coelho prog ARTISTA DO MÊS
Mónica Coelho
a vertigem dos animais prog A VERTIGEM DOS ANIMAIS ANTES DO ABATE
de 13 de Setembro a 28 de Outubro
xana labirintoX001 prog LABIRINTO X001
de 13 de Setembro a 28 de Outubro
jardim zoologico de vidro 10 prog JARDIM ZOOLÓGICO DE VIDRO
de 8 a 18 de Novembro

Bilheteira

3ª a Sáb. das 17h00 até ao final do espectáculo

Preços:
Normal | 10 Euros
Descontos | estudantes | – 30 | + 65 | Grupos >10 | Protocolos | Profissionais do espectáculo | Dia do espectador (3ª) - 6 Euros

Bilhetes à venda

No Teatro da Politécnica, Reservas | 961960281, www.ticketline.sapo.pt, Fnac, Worten, C. C. Dolce Vita, El Corte Inglês, Casino Lisboa, Galeria Comercial Campo Pequeno, Lojas Viagens Abreu e INFORMAÇÕES/RESERVAS: Ligue 1820 (24 horas).

E fora da Politécnica

jogadores de pau miro prog JOGADORES de Pau Miró
Na RTP2, 23 de Setembro às 22h00
jardim zoologico de vidro 10 prog JARDIM ZOOLÓGICO DE VIDRO
Na Guarda, no Teatro Municipal da Guarda a 4 de Novembro
Em Estarreja, no Cine-Teatro de Estarreja a 2 de Dezembro
Em Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes a 8 de Dezembro
a arte em imagens 1 A ARTE DAS IMAGENS
De janeiro de 2017 a janeiro de 2018 nos primeiros domingos de cada mês, às 15h30, a Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva exibe os filmes produzidos pelos Artistas Unidos sobre artistas plásticos.

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