FÁBRICA de Ascanio Celestini

fabrica_a de e com Ascanio Celestini
Música composta e tocada ao vivo
por Gianluca Zammarelli e Matteo D'Agostino

No Teatro Taborda 10 e 11 de Julho de 2004
Integrado no Festival de Teatro de Almada

Pico o ponto às 22 horas precisas e entro na fábrica. É o turno da noite. Mudo-me no vestiário e vou à janela do vestiário. Que a janela do vestiário é precisamente o último ponto da fábrica em que de dentro da fábrica se vê a parte de fora da fábrica. Da janela do vestiário vê-se o quiosque da tabacaria de Assunta, que também serve de bar. Saio, atravesso o pátio de cimento armado da fábrica, passo junto da pereira brava, que está no meio do pátio, do banco junto à pereira, e vou até à fundição. Puseram-me nos altos-fornos, na fundição. Encarregado das limpezas, tenho de varrer o carvão do alto forno. Disseram-me que o meu chefe de turno se chama Fausto. Chama-se Fausto, o sujeito que eu tenho de ir ver. É ele que tem de me explicar o meu trabalho.
Ascanio Celestini, Fabrica, tradução de José Lima

O espectáculo Fabbrica, interpretado e dirigido por Ascanio Celestini, talento emergente do teatro italiano, é o resultado de uma investigação sobre o trabalho em Itália.
Fabbrica fala da relação entre o espaço do trabalho a estrutura da cidade, e das modificações que se operam. A relação tradicional entre o quarto e o lugar de trabalho típico do mundo rural da segunda metade do século XIX é alterado. A consciência desta alteração é o ponto de partida do espectáculo.
“Há cidades que mudam e se alteram pela construção de uma fábrica, e a própria presença do edifício-fábrica cria e modifica relação. Um exemplo típico é Turim - a capital do reino muda para capital da indústria, mantendo-se no entanto no centro da vida política nacional. Outras cidades surgem depois das construções das fábricas e as casas dos operários, empregados e dirigentes são uma espécie de prolongamento do edifício da fábrica. Pontedera na Toscana ou Colleferro no Lazio ou Marghera no Véneto são exemplos. E depois há as cidades sem fábrica, esvaziadas pela emigração que parte para fábricas distantes. As cidades ocupadas pelo trabalho a domicílio. E as cidades destruídas pela fábrica, como é Seveso. Há o exemplo da Emilia Romagna com os camponeses a verem as fábricas crescer a poucos metros dos seus terrenos. O exemplo de muitas aldeias do sul que aguardam há décadas a chegada de uma fábrica, mas a fábrica não chegará nunca ou ficou meia-construída para sempre. Lembro.me de uma fábrica de barcos na Campania, construída em cima de uma colina. Fazia pensar na arca de Noé em cima do monte Ararat. Como se aquela fábrica ali estivesse há muito tempo, quando o mar ainda não atingira aqueles cumes, ou esperasse por um futuro dilúvio que nunca chegará.
Ascanio Celestini

Fabbrica de Ascanio Celestini é a história de um operário admitido por engano; um operário que durante 50 anos escreve todos os dias uma carta à mãe. Todos os dias menos um. A 17 março de 1949, no dia a seguir a ter entrado na fábrica pela primeira vez. Esta carta nunca escrita é o pretexto para voltar atrás no tempo e percorrer as três épocas da instituição-mundo da fábrica: a sua origem e primeiros tempos em que os trabalhadores eram gigantes de aço, operários fortes e invencíveis, com nomes como Libero, Guerriero ou Veraspiritanova; depois, a época da aristocracia operária, anarquista e comunista, indispensável à produção bélica; e por fim a fábrica contemporânea, asséptica e impessoal, dominada por máquinas que transformaram os operários em simples controladores, em sobreviventes incómodos, suportados apenas devido às suas deformidades ou doenças. Através da vida de três gerações de operários dos altos fornos desenha-se aqui a vivência social, política e humana da fábrica no arco de 50 anos de história italiana: do nascimento da classe empresarial à primeira guerra mundial, dos anos escuros do fascismo aos duros combates do pós-guerra, até aos nossos dias. O longo monólogo de Ascanio Celestini funde recordações, afectos e lembranças, recolhidas junto das comunidades operárias de toda a Itália. Aqui se desenha um ambiente social com regras, normas próprias e hierarquias. E com as suas personagens: Pietrasanta, o proprietário oportunista, a Assunta, ex-operária "bela de uma beleza que não é possível dizer” e o fascista Giovanni Berta. Personaggens surreais, mágicos, que tomam corpo nas palavras de Celestini.
A fábrica foi, durante décadas, uma realidade esquecida e marginalizada pelos media. Neste espectáculo, ganha voz e novos significados. Torna-se o catalizador das violências e dos embates sociais, das ilusões e esperanças desfeitas. O operário mantém um vínculo indissolúvel com a fábrica: desposa-a ideal e físicamente, concedendo-lhe uma parte decisiva da própria vida e da própria dignidade e sacrificando-lhe por vezes uma mão, uma perna, um pedaço de si próprio.
O trabalho de reelaboração realizado por Celestini fê-lo criar uma linguagem de enorme força expressiva: é uma nova língua teatral que encontrou um grande reconhecimento graças a certas características próprias: a circularidade e a repetição típicas da narrativa popular que permitem a Celestini narrar ao mesmo tempo acontecimentos passados e presentes. E é o próprio estilo de Celestini, contrapondo um tom monocórdico a um ritmo intenso, sem pausas, que confere ao espectáculo o dramatismo necessário e que arrasta o espectador até esse microcosmo que é a fábrica.
Em Fabbrica, Celestini não inventa nada, os materiais que compõem o seu texto são fruto de longas investigações em Itália - na fábrica Piaggio de Pontedera e na Marghera, em Rubiera e na Fiat. No decorrer do espectáculo ouvimos alguns dos testemunhos. Mas os episódios e as anedotas, as regras e as personagens fundem-se numa única história, a do protagonista Fausto - um metalúrgico que começa a trabalhar no fim da segunda guerra mundial. E é uma longa carta endereçada à mãe.
Um monólogo ininterrupto de duas horas, um testemunho da realidade operária sobre a qual a história oficial só narra lacunas.

O texto Fábrica, com tradução de José Lima, está editado na Revista Artistas Unidos nº11.

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