Manifesto para o Futuro: O Teatro Paulo Claro, Um Dia
Por JORGE SILVA MELO
Sábado, 14 de Setembro de 2002
Há quem pense que um certo teatro contemporâneo começou
em Maio de 1956 com "Look Back in Anger" de John Osborne. O repertório
que temos vindo a fazer durante estes últimos dois anos e meio n´a
Capital deve muito ao gesto fundador de programar esta peça de um rapaz
desconhecido e de a fazer encenar por um novíssimo Tony Richardson.
Quem o ousou foi George Devine na English Stage Company, instalada no Royal
Court Theatre, na tão linda Sloane Square de Londres. O que quer que
se pense hoje da peça de Osborne, foi a "olhar para trás
com raiva" que tudo isto começou.
E, se apresentámos n´a Capital textos de Jon Fosse, Sarah Kane,
David Harrower, David Greig, Arne Sierens, Heiner Müller, Bertolt Brecht,
José Maria Vieira Mendes, Stephen Greenhorn, Harold Pinter, Samuel
Beckett, Xavier Durringer, Spiro Scimone, Duncan McLean, Judith Herzberg,
Esther Gerritsen, Don Duyns, Karst Woudstra, Gregory Motton, Francisco Luís
Parreira, Gerardjan Rijnders e acolhemos textos de Gonçalo M. Tavares,
Jorge Luís Borges, Mark O´Rowe, Brian Friel ou Athol Fugard e
espectáculos de João Fiadeiro, Manuel Wiborg, Filipa Francisco,
Michel Laubu, Graça P. Corrêa ou das Danças Na Cidade
é porque queremos herdar de George Devine as palavras fundadoras (
vindas desses anos 50): "É necessidade urgente do nosso teatro
descobrir um estilo contemporâneo em que a acção dramática,
o diálogo, a representação e a cenografia se conjugam
para criar um teatro moderno. Grandes esforços têm sido feitos
em relação aos autores do passado, nenhuma atenção
prestada ao futuro. Este há-de ser um teatro em que serão mostrados
todos os experimentalistas da arte moderna. De Büchner a Pirandello,
Strindberg, Wedekind, Cromelinck, Giraudoux, O'Casey, Lorca, Brecht e por
aí fora. Todos eles são escritores ousados, intransigentes,
as suas obras são estimulantes, provocatórias e entusiasmantes.
Pertencem a um vital teatro moderno da experiência em que a intenção
é muitas vezes tão importante como o resultado."
Mas não quero "olhar para trás com raiva".
Não quero saber porque passámos tantos meses a discutir com
a actual vereação da Cultura umas obras "cirúrgicas"
e imediatas se, afinal, a decisão seria outra e brusca.
Não quero saber porque reuníamos n´a Capital ainda em
Junho ou Julho (*) com o Secretário de Estado da Cultura (SEC) e a
Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), de orçamento
em punho e analisando os items que poderiam resistir depois de uma intervenção
mais prolongada, para saber se a verba a ser agora dispensada seria ou não
recuperável.
Não quero saber porque é que, em carta do Ministério
da Cultura (MC) de 23 de Agosto, se me afirma que "serão realizados
contactos com a CML no sentido de solicitar àquela autarquia que viabilize
as obras de conservação (...) necessárias à realização
das actividades dessa produtora".
Não quero saber porque é que (sempre com o conhecimento do MC
que, até 2002 e por várias vezes, nos afirmou ser sua intenção
vir a custear essas despesas que acordou ultrapassarem a nossa actividade
e que, já com o actual Gabinete, começou a analisar esse processo
com a CML) colocámos trancas nas portas, limpámos algerozes,
entaipámos entradas até então usadas por marginais, resolvemos
muitos dos problemas de infiltração, instalámos um sistema
de segurança anti-roubo, colocámos fechaduras, desentupimos
as casas-de-banho, esvaziámos à mão mais de metade do
entulho que se encontrava no edifício da Rua do Norte, repusemos vidros
partidos em temporal de Outubro último, pagámos prejuízos
causados pela queda desses vidros.
Não quero saber porque andei a juntar orçamentos que me foram
solicitados de urgência pelo Gabinete do Ministro Augusto Santos Silva
e, ainda a 16 de Agosto, desta feita com alegada autorização
superior e nos Paços do Concelho, me foram pedidos novos orçamentos
para intervenções no telhado.
Não quero saber porque se disponibilizou o Instituto de Arte Contemporânea
(IAC), em visita conjugada com a CML, a apoiar uma instalação
da artista Ana Vieira para o ano de 2003 num dos andares do edifício
da Rua Diário de Notícias.
Não quero saber porque apresentámos a quatro Gabinetes sucessivos
do MC um plano de obras imediatas, plano para o qual sempre nos disseram que
a resposta tinha e havia de ser rápida.
Não quero saber porque me foi pedido na CML, a 16 de Agosto, uma reunião
a ser marcada com urgência com o arquitecto Pedro Maurício Borges
para discutirmos os pontos fulcrais de uma iminente intervenção
que não viesse em sentido contrário das futuras obras de requalificação
a serem mais demoradamente analisadas.
Não quero saber porque é que, à minha pergunta "devo
continuar a programar n´a Capital nestas condições?",
a resposta foi sempre afirmativa quer da Câmara Municipal de Lisboa,
quer do Ministério, quer do Instituto Português das Artes do
Espectáculo (IPAE) e, ainda há menos de três meses, voltei
a fazer a pergunta ao SEC, não tendo obtido até agora qualquer
resposta negativa.
Não quero saber porque é que o Teatro Taborda (que pertence
à CML) não aceitou as minhas propostas para 2002 por considerar
(sic) que eu dispunha de "espaço próprio para apresentação".
Não quero saber porque é que, desde 22 de Abril (e com conhecimento
do MC e da CML), decorria o processo de licenciamento definitivo do recinto
"por contraponto ao sistemático recurso à figura de "licenciamento
acidental" que tem vindo a ser concedido para garantir a actividade dos
Artistas Unidos", como se lê em ofício do IGAC de 7 de Maio.
Não quero saber porque é que, no dia 29 de Agosto, me encontrava
eu com a Vereadora da Cultura e o Responsável pelos Equipamentos Culturais
contrapropondo um faseamento de saída d´a Capital, contraposta
que combinei enviar por mail ainda nessa tarde, e isto à hora em que
a Polícia Municipal fechava o edifício, de cuja evacuação
imediata nunca fui notificado, sendo eu sócio-gerente da empresa.
Não quero saber porque é que o senhor Presidente da Câmara
de Lisboa, no dia de Junho ou Julho (*) em que visitou A Capital, acabou a
visita apertando-me a mão com "parabéns".
Não quero saber.
Porque não quero "olhar para trás com raiva".
"Tratar dos vivos e enterrar os mortos" é pombalino lema
celebrizado em pomposo quadro existente nos Paços do Concelho e que
ainda hoje nos deveria orientar.
Sim, vamos tratar dos vivos. E enterrar os mortos e a sua intrincada papelada.
Isso mesmo acordei com a Vereadora do Urbanismo, Eduarda Napoleão,
e isso mesmo espero da sua parte.
Sim, iremos três meses para Braço de Prata. ( Ou talvez não,
se a demora continua.)
Sim, ficaremos em minha casa, fechadinhos como o capitão na Cabina
do "Tubarão" de Spielberg, com o perigo lá fora (tão
pinteriana essa parte do filme...)
Sim, instalar-nos-emos nas antigas Oficinas Gerais do Material de Engenharia
do Exército de Belém.
Sim, tudo faremos para colocar os espectáculos noutros palcos e em
datas aproximadas às que prevíramos.
Sim, tentaremos reerguer uma programação de que nos orgulhamos.
Sim., tentaremos estar com os espectadores que nos acarinham.
Sim, tentaremos negociar com a banca o dinheiro que nos falta e que iremos
pagar.
Sim, estudaremos o protocolo de utilização do espaço
de Braço de Prata, tal como nos foi prometido em 6 de Setembro.
Sim, estudaremos o protocolo de utilização temporária
das OGMEE de Belém, tal como nos foi prometido a 5 de Setembro.
Sim, tentaremos corresponder à amizade das centenas de pessoas que
subscrevem um abaixo assinado perplexo ao Presidente da Câmara de Lisboa.
Sim, tentaremos corresponder às expectativas que nos são afirmadas
por nomes fundamentais da cultura europeia que a nós se juntam, inquietos
e firmes.
Sim, vamos continuar. Não, não vamos desistir.
Mas há um romance americano, muito velho, muito lindo, que, uma manhã
de 1965 descobrimos na Livraria Universitária, ali ao Campo Grande,
o Nuno Júdice, o Rui Diniz e eu. É um romance de 1929 escrito
por Thomas Wolfe e o seu título inglês é "Look Homeward,
Angel". O que, para português, nunca desde então conseguimos
traduzir, mas daria qualquer coisa como "Anjo, Olha Para a Tua Casa".
E, leves como anjos, a andar de Braço de Prata para a Praça
do Município, das antigas Oficinas Gerais do Material de Engenharia
do Exército em Belém para A Capital no Bairro Alto, do Palácio
da Ajuda para o CCB, sem haveres, imponderáveis como pássaros
em migração, nessa leveza para a qual, olhando o céu
no seu quintal da Graça, um fim de tarde me apontou Sophia ("olhe,
já viu os pássaros, vão para tão longe e não
levam nada... e nós é carros e carros só para ir até
à Meia-Praia"), lá iremos, tem-te-não-caias, resolver
o que houver a salvar da amizade e do teatro.
Mas estaremos sempre a olhar para a nossa casa, aquele edifício escalavrado
na Rua Diário de Notícias que faz esquina com a Travessa do
Poço da Cidade e depois com a Rua do Norte.
É nessa casa que queremos
1. Construir um Centro de Artes que reuna artistas das mais diversas artes
com áreas de trabalho e áreas de apresentação
ao público
2. Construir as bases para um repertório contemporâneo de que
o teatro português anda arredado.
3. Construir um lugar em que aos actores não seja vedado o acesso à
produção.
4. Construir um lugar em que o espectador possa estar tão interessado
"na intenção como no resultado".
5. Construir um lugar novo, uma pareceria MC/CML, com caderno de encargos,
direcções nomeadas por três anos e por concurso, gestão
comum e contas limpas.
6. Construir um Teatro dos Autores na sua forma mais moderna. Em que os actores
não sejam remetidos à função de meros intérpretes.
7. Trabalhar e viver.
É essa a Casa para que ficaremos, vigilantes, a olhar, a casa a que
um dia (e cito Racine com umas sílabas e esperança a mais: "daqui
a um mês, daqui a um ano..."), voltaremos para nela colocar o nome
do nosso Anjo, quando, definitivamente, lhe chamarmos Teatro Paulo Claro.
Jorge Silva Melo, Director artístico dos Artistas Unidos
13 de Setembro de 2002
(*) sem acesso a grande parte dos arquivos que se encontram n´A Capital
ou em caixotes desordenados aqui por casa, há datas que não
consigo precisar.