O
ENCARREGADO de Harold Pinter
THE CARETAKER estreou no Arts Theatre em 27 Abril de 1960, numa encenação de Donald McWhinnie, com cenários e iluminação de Brian Curry e o seguinte elenco: Peter Woodthrope (Aston); Alan Bates (Mick); Donald Pleasence (Davies). O espectáculo foi transferido nesse mesmo ano para o Duchess Theatre. No ano seguinte, estreou em Paris com Roger Blin, José Varela e Jean Martin e estreou quase em simultâneo em Amsterdão, Dusseldorf, Hannover, Essen, Bielefeld, Cape Town e Nova Iorque. A peça recebeu o Evening Standard Award para a melhor peça do ano ( 1960). O triunfo do espectáculo foi de tal ordem que um grupo de personalidades que incluia Richard Burton, Leslie Caron, Noël Coward, Peter Hall, Peter Sellers e Elizabeth Taylor fundou uma produtora para a produção de um filme (também com Bates e Pleasence, mas agora com Robert Shaw no papel de Aston) que foi realizado por Clive Donner em 1963. Em 1991, o próprio Pinter encenou a peça no Comedy Theatre. Em Portugal estreou no Teatro Tivoli em 1967 com o título O PORTEIRO, numa tradução de João Vieira e Jacinto Ramos e encenação de Jorge Listopad, com Augusto de Figueiredo, Jacinto Ramos e Henrique Viana.
Talvez Aston traga para casa o vagabundo Davies como mais uma das coisas inúteis que lhe atravancam o quarto. |
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| Aston tem um barracão para construir no jardim mas não desiste de tentar arranjar a ficha de uma torradeira, Davies quer ir a Sidcup buscar os seus documentos só que o tempo não há maneira de melhorar. E Mick entra em cena, fala de frutos secos, autocarros e decoração de interiores, manipula Davies com um nonsense inquietante, assusta-o, ameaça-o, oferece-lhe sanduíches. Em momentos diferentes, os irmãos Aston e Mick propõem a Davies o lugar de encarregado do prédio (com que funções?). As perguntas são: quem é que toma conta de quê e de quem? quem é que manda em quê e em quem? como é possível viver em conjunto quando a linguagem é feita de relações de poder, por entre alianças, traições e pequenas violências? |
Claro
que eu próprio me ri enquanto escrevia O ENCARREGADO mas não o tempo todo,
não "indiscriminadamente". [...] Tanto quanto isso me diz respeito, O
ENCARREGADO é uma peça engraçada, até um certo ponto. Para além desse
ponto, deixa de ser engraçada e foi por causa desse ponto que a escrevi.
Harold Pinter
Espirituoso, violento,
escrito com um ouvido infalível para os ritmos da língua, ameaçador e
terno, O ENCARREGADO é visivelmente obra da mesma mente inquieta que nos
deu FELIZ ANIVERSÁRIO, peça que agora é considerada das maiores do nosso
tempo. Tal como nessa, também aqui há um intruso, também aqui aquele cuja
casa é invadida é lento no espírito e na fala. Fica perturbado, e por
vezes tem medo. O vagabundo sujo e desprezível em relação a quem ele mostra
carinho e dedicação trata-o com uma ingratidão insuportável. Mas no entanto
este homem, Aston, que não é apenas lento mas também gentil, generoso
e bem formado é realmente formidável. Todos os ataques, toda a luta vem
do outro lado. Mas, tirando um momento, nunca duvidamos de quem exerce
o poder. Na escrita magistral desta personagen há uma implacabilidade
tão poderosa e silenciosa que tentar demovê-lo é como dar murros contra
uma parede. Aston é admirável, agradável, tem a justiça do seu lado. O
vagabundo, Davies, é no final o mesmo que no início, um impostor, cruel,
egoísta e sem escrúpulos. E no entanto, quando o pano cai sobre a fraca
rendição de Davies, é com este vagabundo que fica a nossa simpatia. E
sem que, no entanto, em nada tenha diminuído a nossa admiração por Aston.
Pinter olha com igual penetração para dentro do coração de homens que
estão em lados opostos.
Harold Hobson, Sunday Times, 1960
O sólido realismo
das circunstâncias e personagens em O ENCARREGADO e o facto de a realidade
ter aqui um aspecto indeterminado, aberto e misterioso da própria vida,
é o fundamento da eficácia deste texto num alto plano - o plano da imagem
poética, a metáfora de uma verdade maior e mais geral, um arquétipo poderoso
e universal. Isto é no fundo devido à extrema clareza e aguda precisão
com que o mundo real é aqui representado. E é a primeira peça de Pinter
a ter conseguido esta completa síntese entre o realismo da acção exterior
e a metáfora poética, a imagem onírica de arquétipos intemporais no mais
profundo - ou elevado - nível de impacto.
Martin Esslin
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