| UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA de Bohumil Hrabal |
Este espectáculo estreou no Centro Cultural de Belém a 14 de Fevereiro de 1997 O texto está publicado na Revista nº 1 dos Artistas Unidos UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA: Este monólogo barroco transporta-nos ao ambiente amarelecido e cru da Checoslóvaquia de Kafka, afinal símbolo universal do absurdo existencial que povoa as nossas vidas. Uma história normal, se é que se pode chamar normal à simplicidade. Um homem, um funcionário que vive algures numa casa escura e velha cheia de livros. Um homem cuja função é prensar papel velho numa cave; todos os dias toneladas de livros. U homem solitário, que vive das memórias do passado, das frases livrescas e das canecas de cerveja. Uma espécie de vagabundo que lê todos os livros que passam nessa cave, um homem culto sem querer. Um espécie de "velho do rio" que pensa e filosofa sobre uma série de coisas, que bebe canecas e canecas de cerveja, não para se embebedar, mas para pensar melhor. Um contador de histórias. Um velho que sente estar a ser ultrapassado pelo tempo no qual já não tem lugar. Um poeta da realidade.
"Em Praga, há uma cave. Brilhante como uma gruta de tesouros. Sombria e suja como um esgoto. Nessa cave há milhares de livros, centenas de ratos, visões passageiras e palavras que tornam o mundo grande. E há um homem, Hanta. Que há 30 anos empurra afectuosamente os livros, os mais belos e mais banais, para a prensa que os tritura e transforma em cubos de papel. Mas Hanta é um "carniceiro terno". Sabe salvaguardar as palavras guardando-as na sua memória, para que elas brilhem que nem sóis, e para que esses sóis o ajudem a ver como pode ser a vida de um homem. Por entre a poeira, o suor e o cheiro a cerveja que não pára de beber, Hanta fala-nos. Do mais fundo da sua solidão, ele fala com os seus livros e as suas lembranças, saúda os seus poetas e os seus amores. O obscuro Hanta recusa triturar o esplendor da vida em nome do bom senso, da ordem, da rentabilidade. O magnífico Hanta prefere morrer a aceitar a morte dos sonhos passados: e ele, bêbedo, iluminado, desaparecerá na pura alegria dos seus amores de antes, assassinados, reencontrados. Hrabal afirmou que veio ao mundo apenas para escrever UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA. Ele tem a convicção que escrever este texto era uma necessidade. E era."Evelyne Pieiller Um texto surpreendente de um fabuloso autor checo ainda pouco conhecido em Portugal e que nos legou, entre outras coisas, esta obra-prima chamada "Uma Solidão Demasiado Ruidosa". António Simão soube, duas décadas depois, pô-la em palco. Magistralmente. Nada mais bonito do que poder o espectador, em especial quando é crítico, elogiar o espectáculo que viu. Dizer: Eh! Companheiro, coisa linda que você deu. Porque isto de sair de casa e ir a um lugar onde alguém espera por nós para nos proporcionar, mesmo que sozinho ou por isso, um texto e um trabalho tão bons, merece uma palavra de gratidão, outra de aplauso, a terceira de incentivo. Um feliz caso de recriação dramática de um texto narrativo que nada fica a dever ao original, É, ainda, um excelente trabalho de interpretação, na coerência da construção e na eficácia comunicativa que a situação de monólogo estabelece com o público. Quanto à paixão do actor António Simão por este texto, vale a pena ver a energia e a violência que coloca neste "one man show" tão movimentado e frenético quando pode sê-lo um solilóquio. Toda a crueza e toda a surreal-abjecção do texto passa pelo corpo do solista que é indispensável ver. |



