| TÃO SÓ O FIM DO MUNDO de Jean-Luc Lagarce |
Estreia Teatro Taborda a 6 de Janeiro de 2005 O texto está publicado nos LIVRINHOS DE TEATRO, Volume 7 dos Artistas Unidos Uma tragédia que não diz o seu nome. Uma ferida que o mundo não deixa surgir e que, no entanto, provoca efeitos à sua volta. Um homem, um filho, regressa a casa dos seus que há muito deixara. Sabe que vai morrer. Volta para lhes dizer. Volta a ver a mãe, a irmã, o irmão e a cunhada. Gostava de lhes falar, de lhes dizer quem é e como anda, os seus desejos e penas. Nada disso consegue. É esta a incrível força desta peça: nada é dito e, no entanto, cada um dos que se cala está entregue às palavras. São lutas improváveis e subterrâneas de que nos fala o teatro de Jean-Luc Lagarce. Para ocupar o lugar vazio de um amor desfeito, incapaz de passar à linguagem. O homem vai-se embora sem nada ter dito. Lagarce volta, seis anos, depois, em Le Pays Lointain a este mesmo rapaz.
Com Tão só o fim do mundo, Jean-Luc Lagarce retrata-se a si próprio neste homem que sabe que vai morrer. Quer voltar a ver os seus para lhes dizer, mas não consegue ultrapassar a barreira das relações convencionais, as pequenas intrigas, os rancores, os silêncios. Vai-se embora sem revelar o seu segredo. Tão só o fim do mundo foi escrito por um homem que se sabia condenado. Provavelmente só quem está perto da morte pode ter uma tal preocupação com a justeza das palavras. Em Lagarce, não se trata de preciosismo, esta precisão é a sua escrita, exigente, rigorosa, não naturalista. Esta exigência formal ultrapassa a história da família e dá-lhe um lado universal, como todas as grandes obras literárias. O teatro de Jean-Luc Lagarce é um teatro íntimo, nostálgico, humanista, mas com algum cinismo, onde as palavras contam a história, mas estão recheadas de suspensões, de silêncios, de ausências, de perdas. Pouco representado enquanto vivo, Jean-Luc Lagarce é agora um nome fundamental da dramaturgia contemporânea pela precisão da escrita, a sensibilidade e a justeza da narrativa. Estamos perante a ausência, o regresso do não dito e da morte. Louis, um rapaz que sabe que vai morrer em breve, regressa a casa para uma visita que ele quer que seja definitiva. Encontra mãe, irmã, irmão e cunhada que não vê há dez anos. Mas os nós inextricáveis do círculo familiar, os ajustes de contas, o conflito entre os dois irmãos, farão com que Louis se vá embora sem nada ter dito. Não é uma peça realista, antes uma alegoria das relações do autor com o mundo e uma reflexão filosófica sobre a morte que chega, o silêncio e o remorso. No final de contas, desta visita de que ele tanto espera, os equívocos da mãe, as frustrações da irmã, o rancor do irmão e a ingenuidade da cunhada, farão com que nada fique. E ele volta a partir com o seu segredo, a morte programada ao fundo de um túnel. A língua de Lagarce é bela, simples, sem qualquer ênfase. Não recorre a imagens. Há uma economia que lhe confere um tom lírico, sugere mais do que diz. E há um ritmo, uma musicalidade da palavra. Há aqui uma reapropriação da palavra, nesta língua muito banal mas próxima da eloquência antiga. Lagarce escreve sem recorrer a efeitos, numa língua simples e bela. Usa poucas palavras, sempre justas, sempre as mesmas como em Racine. Alguém vai morrer. É uma questão de tempo. A escrita também é uma questão de tempo: aqui é a palavra que toca a finados. É um estranho sorriso a música desta carta de adeus. |


