| VIVE QUEM VIVE de Jacques Prévert |
Estreia Teatro Taborda, 10 de Dezembro de 2003 O Texto está publicado no volume CENAS (ed. e etc). É noite de Natal. Há um senhor nem muito pobre nem muito rico a precisar de um táxi para voltar à moradia onde vive sozinho e onde pretende cumprir sem companhia o seu ritual de consoada: os brinquedos da infância com que nunca brincou, a missa do galo pela rádio, sem esquecer o peru.Depois há um indivíduo muito mais pobre do que rico que tem outros planos para a noite (a sua e a do senhor): começa por arranjar o tal táxi, vai com o senhor no carro e entra-lhe em casa enquanto o cão vai buscar o resto da família. Vai haver festa, os brinquedos vão finalmente servir, as velas vão acender-se e a caixa de música, que nunca tinha tocado, vai competir com os cânticos como deve ser da rádio, onde também se faz publicidade a um produto que vai resolver a noite. O SENHOR Quem é você? E para onde é que vai? Jacques Prévert publicou a peça infantil GUIGNOL em 1952, com desenhos de Elsa Henriquez."Guignol" é uma marioneta sem fios, operada com os dedos, mas também pode ser o teatrinho onde se representam peças cujo protagonista se chama Guignol; por extensão, aplica-se a uma pessoa involuntariamente ridícula, ou a um acontecimento grotesco. A peça de Prévert, ao romper com os estereótipos que é costume fornecer às crianças em época de Natal, interroga também os significados habituais das palavras: "guignol", involuntariamente ridículo, será o senhor como deve ser, aquele que finge que vive, que grita e gesticula muito; mas será a acção da peça apenas um grotesco "mundo às avessas", uma "guignolesca" inversão de papéis que fica arrumada com o cair do pano? Já sabíamos que as histórias para crianças são lugares onde se vê a ideologia a olho nu (sinal recente disso são os ingénuos contos infantis "politicamente correctos"). Com humor, música, um taxista, um polícia e um vidraceiro, o "homem do saco" e animais que falam, misturando a vida de todos os dias com a fantasia, Prévert acaba por contar uma história não muito diferente das "ocupações da propriedade" a que nos habitou Harold Pinter (aqui, a violência dissimula-se debaixo de um sono de uma semana). Esta história de "conquista da felicidade", longe de ser panfletária, talvez ajude a pensar e a pôr em causa. Vive quem vive. |


