| O ENCARREGADO de Harold Pinter |
Estreia Culturgest, 5 de Dezembro de 2002 O texto está publicado no volume TEATRO I de Harold Pinter (Ed. Relógio d´Água ).
Talvez Aston traga para casa o vagabundo Davies como mais uma das coisas inúteis que lhe atravancam o quarto. Claro que eu próprio me ri enquanto escrevia O ENCARREGADO mas não o tempo todo, não "indiscriminadamente". [...] Tanto quanto isso me diz respeito, O ENCARREGADO é uma peça engraçada, até um certo ponto. Para além desse ponto, deixa de ser engraçada e foi por causa desse ponto que a escrevi. Espirituoso, violento, escrito com um ouvido infalível para os ritmos da língua, ameaçador e terno, O ENCARREGADO é visivelmente obra da mesma mente inquieta que nos deu FELIZ ANIVERSÁRIO, peça que agora é considerada das maiores do nosso tempo. Tal como nessa, também aqui há um intruso, também aqui aquele cuja casa é invadida é lento no espírito e na fala. Fica perturbado, e por vezes tem medo. O vagabundo sujo e desprezível em relação a quem ele mostra carinho e dedicação trata-o com uma ingratidão insuportável. Mas no entanto este homem, Aston, que não é apenas lento mas também gentil, generoso e bem formado é realmente formidável. Todos os ataques, toda a luta vem do outro lado. Mas, tirando um momento, nunca duvidamos de quem exerce o poder. Na escrita magistral desta personagen há uma implacabilidade tão poderosa e silenciosa que tentar demovê-lo é como dar murros contra uma parede. Aston é admirável, agradável, tem a justiça do seu lado. O vagabundo, Davies, é no final o mesmo que no início, um impostor, cruel, egoísta e sem escrúpulos. E no entanto, quando o pano cai sobre a fraca rendição de Davies, é com este vagabundo que fica a nossa simpatia. E sem que, no entanto, em nada tenha diminuído a nossa admiração por Aston. Pinter olha com igual penetração para dentro do coração de homens que estão em lados opostos. Harold Hobson, Sunday Times, 1960 O sólido realismo das circunstâncias e personagens em O ENCARREGADO e o facto de a realidade ter aqui um aspecto indeterminado, aberto e misterioso da própria vida, é o fundamento da eficácia deste texto num alto plano - o plano da imagem poética, a metáfora de uma verdade maior e mais geral, um arquétipo poderoso e universal. Isto é no fundo devido à extrema clareza e aguda precisão com que o mundo real é aqui representado. E é a primeira peça de Pinter a ter conseguido esta completa síntese entre o realismo da acção exterior e a metáfora poética, a imagem onírica de arquétipos intemporais no mais profundo - ou elevado - nível de impacto. |



