| ESTA NOITE IMPROVISA-SE de Luigi Pirandello |
ESTA NOITE IMPROVISA-SE de Luigi Pirandello Tradução Luís Miguel Cintra e Osório Mateus Com António Simão, Cândido Ferreira, Lia Gama, Sílvia Filipe, Pedro Lacerda, Alexandre Ferreira, Andreia Bento, Cecília Henriques, João Meireles, John Romão, Pedro Luzindro, Sara Belo, Victor Gonçalves, Crista Alfaiate, João Miguel Rodrigues, Joaquim Pedro, Alexandra Viveiros, Luís Godinho / Pedro Carraca, Miguel Telmo, Miguel Aguiar, Carlos Marques, Jéssica Anne, João Abel, António Rodrigues, Ricardo Batista, Sara Moura, Vânia Rodrigues, e os músicos Antóniopedro, João Cabrita / Elmano Coelho, Miguel Tapadas e Vitor Ilhéu Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Assistência de Cenografia João Prazeres Assistência de Figurinos Helena Rosa Luz Pedro Domingos Direcção Musical Rui Rebelo Encenação Jorge Silva Melo assistido por João Miguel Rodrigues e Luís Godinho Uma produção Teatro Nacional D. Maria II/Artistas Unidos Esta Noite Improvisa-se MOMMINA Vou agora mostrar-vos, o teatro! Primeiro vou dizer-vos como é.Uma sala, uma sala grande, com muitas filas de camarotes em redor, cinco, seis filas cheias de lindas senhoras elegantes, com plumas, jóias, leques, flores; e senhores de fraque com pérolas no plastron e gravata branca; e muita gente, muita, nas poltronas vermelhas da plateia; um mar de cabeças; e luzes, luzes por todo o lado; um lustre no meio que parece cair do céu e que parece ser todo de diamantes; uma luz que encandeia, que inebria como não podem imaginar; e um rumor, um movimento; as senhoras a conversar com os cavalheiros, a cumprimentarem-se de camarote para camarote, uns sentados na plateia, outros a olhar pelo binóculo... aquele de madrepérola que eu vos dei para verem os campos... aquele... levava-o eu, levava-o a vossa mamã quando ia ao teatro, e olhava ela também, naquele tempo... De repente as luzes apagam-se. Ficam acesas apenas as luzinhas verdes da orquestra que está na frente da plateia por baixo do pano de boca; os músicos já lá estão, tantos, tantos, a afinar os instrumentos; e o pano de boca é uma cortina mas grande e pesada, de veludo vermelho e franjas de ouro, uma magnificência; quando se abre... o maestro já entrou com a batuta para dirigir os músicos... começa a ópera: vê-se o palco que é uma floresta, ou uma praça, ou um palácio; e a tia Totina entra para cantar com os outros enquanto toca a orquestra... É isto o teatro... Mas antes, antes era eu quem tinha a voz mais bonita...
Toda a obra se desenvolve numa despudorada relação entre os espectadores e os actores. Discussões sobre encenação, dúvidas dos intérpretes, escolhas do director, tudo isto se desenrola diante dos espectadores, tal como as mudanças de cena, efeitos de luz, numa espécie de girândola de efeitos que anuncia a ficção da realidade. PIRANDELLO: a interminável especulação 2. Como passaria hoje Pirandello diante dos quiosques de revistas, onde realidade e ficção se misturam sem fronteiras, como veria ele hoje esta omnipresença dos media onde deixamos de saber se a gravidez da actriz é a da personagem, onde não sabemos distinguir o marido do amante do companheiro de profissão, o que diria ele daqueles concursos de espiolhagem da “vida real” com que há anos as nossas noites se obscurecem, nesta aceleração de informações que logo se somem no esquecimento? “Como tu me queiras” diz uma das personagens mais célebres de Pirandello, efabulador intranquilo. 3. Voltar a Pirandello hoje é voltar a questionar os limites da ficção e as suas possibilidades. Agora que parece ter voltado a instalar-se a “peça bem feita” da tradição anglo-saxónica, agora em que há ficções que vendem a “explicação” do real, é importante voltarmos a ver os cacos, os fragmentos, a impossibilidade, os muitos escolhos em que tropeça a narrativa e a brecha sangrenta que Pirandello abriu no tal céu de papel, ferida por cicatrizar ( e Freud andava por lá, como por cá os heterónimos de Pessoa, rebentando identidades e consciências). 4. O que me interessa ao voltar a Pirandello é voltar ver o palco como o lugar da incerteza. Incerteza psicológica, narrativa, social, desequilíbrio sobre a qual se ergue a permanente, ininterrupta, imperiosa necessidade de voltar a contar histórias, de efabular, de especular. 5. Porque temos medo de estar sozinhos na noite, perante os cacos da vida, ou não é por isso que nos juntamos no teatro? |



