| PAIXÃO SEGUNDO JOÃO de Antonio Tarantino |
Estreia Convento das Mónicas, 3 de Junho de 2006 Este espectáculo foi reposto em Lisboa, no Convento das Mónicas, a partir de 18 de Outubro de 2006. O texto está publicado nos Livrinhos de Teatro 11 Duas personagens, um doente mental e o seu enfermeiro, em monólogos nas várias estações que marcam um dia de hospital psiquiátrico. São as etapas de um calvário percorrido por um louco que acredita ser ELE, enquanto o seu acompanhante expõe os delírios num ambiente de prepotências diárias nas quais ele também participa. Eu-Ele, mentiroso e mitómano, vive no seu imaginário a epopeia do próprio teatro oblíquo em conflito com a acção, as filas de espera, a consulta médica, os serviços da segurança social, o vencimento da pensão, a rebaldaria do Bar do Desporto, o sexo consumado em solidão, a abertura da época do futebol com o Brescia na 1.ª divisão (e finalmente poder ver os grandes e até a Juve da Turim natal). É um meteoro. Não sabemos se é doido ou não, consciente ou alienado, violento ou pacífico, homem ou animal. Na sua luta com a sociedade experimenta a extraordinária e incrível iluminação, através de uma perda de identidade ou uma escolha obscura ou louca, fazendo-se passar pela figura mais alta da cultura e da religião cristã. É o máximo da espiritualidade e o máximo do realismo. “No mundo o mal existe e a desventura também”, são palavras de João no momento da separação; é a recusa do mistério. Os dois elementos coincidem na personagem: a sociedade encarrega-se de os curar ou anular.Mesmo na espera, Eu-Ele corre para um dos seus destinos: crucificação, fármacos ou electrochoques. Ao passo que João prosseguirá o seu caminho, deixar-se-á tentar mas escapará à linguagem da loucura recuperando o domínio de si próprio. O que não implica qualquer traição ao seu trabalho-missão. Como diz Tarantino: é um contraponto de linguagens, um contacto e envolvimento de destinos-palavra. Nem o amor ao próximo modifica a nossa condição humana, que é a solidão, a morte e o isolamento. João procura aliviar o sofrimento do doente ao ponto de ir com ele dar uma voltinha de carro ou de o deixar apanhar uma bebedeira. Mas ao fim e ao cabo, como bom evangelista, limita-se a aflorar a sua paixão para no-la decifrar remetendo o seu sentido oculto ao nosso implacável quotidiano. Para a Paixão segundo Joãode Antonio Tarantino
Há tensão entre o Ser que está na Palavra - que um esquizofrénico Eu-Ele dir-se-ia misteriosamente alcançar - e o simples estar numa ordem falada, real e logicamente conclusiva: a ordem do enfermeiro João. |


