| NORUEGA-LISBOA-NORUEGA |
IBSEN e FOSSE EM TRADUÇÃO, mesa-redonda com Luís Miguel Cintra (actor e encenador, director do Teatro da Cornucópia), Terje Merli (encenador), Berit Gulberg (agente literária), Solveig Nordlund (encenadora e introdutora de Fosse em Portugal) e Pedro Porto Fernandes (tradutor de Ibsen, Fosse, Lygre, Halle e outros) moderada por Jorge Silva Melo. SOU O VENTO, tradução de Pedro Porto Fernandes, leitura por Manuel Wiborg e Pedro Lima. Foi no final de 1999 que descobrimos, surpreendidos, um jovem escritor norueguês. Jon Fosse. E a sua peça VAI VIR ALGUÉM foi a primeira estreia que fizemos n´A CAPITAL, mesmo no centro de Lisboa, edifício devoluto que nos foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa. Era um texto estranho, inesperado, admirável, uma pequena jóia. Dirigiu-o Solveig Nordlund. E Jon Fosse veio ter connosco. E ficámos amigos. Voltou depois, quando estreámos SONHO DE OUTONO, a sua belíssima sonata espectral. E continuámos a fazê-lo, sempre excitados pelo seu talento único, raro. Editámos as suas peças, produzimos várias, falámos com ele, persegue-nos. Até agora, para além daquelas, já fizemos A NOITE CANTA OS SEUS CANTOS, INVERNO e LILÁS. E lemos sempre o que faz, à espera de a ele voltar.Já há mais de cinco anos - e desgraçadamente - não estamos no maravilhoso edifício de A CAPITAL, aquilo está fechado, morto, andamos de um lado para o outro. Mas um dia quisemos saber mais coisas do teatro que se faz na Noruega. Uma dramaturgia de onde emerge Jon Fosse não pode ser só ele. E, a convite da Embaixada em Lisboa, partimos, uma primavera, para o Det Åpne Teater em Oslo, e encontramo-nos com a sua directora, Franzisca Aarflot. Descobrimos amigos comuns, admirações partilhadas, sonhos, desejos, não nos largámos. Ela entregou-nos uma mão cheia de peças, traduzimos, publicámos textos de Jesper Halle, esse maravilhoso escritor que é Arne Lygre, a livre, leve, fresca Maria Tryti Vennerød, Niels Fredrik Dahl, convidámos a Franzisca para dirigir A MATA de Jesper Halle, maravilhoso espectáculo feito com alunos do Chapitô e onde o texto ganhou inflexões inesperadas. E descobrimos outro amigo, um tradutor, Pedro Porto Fernandes, português que há muitos anos vive em Oslo e que para nós traduz. E que está a traduzir Ibsen, de quem a Cotovia publica agora uma ampla selecção (em 4 tomos). Mas Franzisca Aarflot não quer apenas trazer a sua literatura dramática até nós. Convidou o José Maria Vieira Mendes a escrever em homenagem a Ibsen. E traduziu peças dele, do Jacinto Lucas Pires, da Patrícia Portela. Apresentou esses textos no seu teatro, editou, volta a apresentar, trabalha connosco.Veio, o ano passado, dirigir DISCO PIGS de Enda Walsh, que apresentou em Lisboa e em Oslo. Este ano, juntamos Jesper Halle e Miguel Castro Caldas na escrita conjunta de uma peça, BABEL, que, no Verão, será apresenta-da em Portugal, França e Noruega. Já vários de nós conhecem bem o caminho do aeroporto até ao centro de Oslo e como se vai a pé da Estação até ao Teatro da Franzisca. Já a Franzisca chega a Lisboa e não é preciso ir buscá-la ao aeroporto, estamos em casa aqui e ali, continuamos a conversa. Assim é que deveria ser. Eu, por mim, jamais esquecerei que, para receber Jon Fosse no edifício de A Capital, em 2000 - e era um edifício meio em ruínas e abandonado há sete anos - a embaixadora e a adida cultural de então chegaram com os seus carros cheios de comida e bebida, improvisámos umas mesas, e depois do espectáculo, comemos, bebemos, ficámos a conversar até às tantas. Foi a nossa primeira festa. E não mais nos perdemos de vista. E se desta vez lemos excertos de SOU O VENTO, e lançamos mais um livrinho com textos de Jon Fosse, é porque não tenho dúvidas que um dia destes faremos uma destas suas últimas peças, tão rarefeitas, tão belas, tão únicas. Assim deveria ser o trabalho. E foi tudo tão simples. Jorge Silva Melo |




