PONTAPÉ DE SAÍDA

Pontapé de Saída
Duas leituras espectáculo
ITALIA BRASIL 3 a 2 de Davide Enia
O SENHOR ARMAND, DITO GARRINCHA de Serge Valetti
Um projecto
A&M/ Ensaio/ Artistas Unidos/ Culturporto

Duas peças de teatro escritas por actores. Actores que são autores. Um siciliano, outro marselhês. Autores das terras pobres do mediterrâneo. Onde o futebol é um sonho, uma epopeia, uma gesta. E sobre ambos os textos, a sombra trágica de Garrincha, a alegria do povo. Teatro de actores, escrito por actores, produzido por actores em novas produtoras em que actores encontram o seu modo de viver. É também para isso que os Artistas Unidos servem: para apoiar novas produtoras em que artistas decidem pegar o touro pelos cornos e sabem rematar.

 

29 de Maio pelas 18h no Pequeno Auditório do Rivoli
ITÁLIA BRASIL 3 a 2 de Davide Enia
tradução de Alessandra Balsamo
Por José Airosa, direcção de Pedro Marques
Uma produção A&M/Artistas Unidos/ Culturporto

Uma telecrónica "epi-cómica" e pessoalíssima do desafio da Selecção Italiana no Mundial de 1982. Uma evocação delirante das personagens e factos, feita de acordo com a tradição do “conto” tradicional siciliano. Este tradicionalmente narrava um acontecimento importante, um acto heróico que assim era transmitido às gerações futuras. Na tradição do espectáculo italiano, o “cuntu” vem da “canção de gesta” francesa, e celebra em dialecto a epopeia católica dos paladinos carolíngios contra os mouros. Paolo Rossi, Zoff, Conti, Pelè, Falcão, não ficam atrás de Rolando ou Rinaldo, a sua “gesta” pertence à memória colectiva. E eles merecem um seu Olimpo menor, mítico e moderno.

Neste texto juntam-se tiques e estereótipos do bizarro ritual que regularmente se organiza em volta do acontecimento mediático: figurinhas dos jogadores usadas como santinhos e rodeadas de velinhas, amuletos, sinais da cruz… Enia ainda arranja tempo para digressões "sérias" como a triste história de "garrincha", que morreu na miséria e esquecido de todos, ou do guarda-redes Tusevich assassinado no campo de jogo pelos nazis durante a segunda guerra mundial. “Itália Brasil 3-2” é um espectáculo de cabaré:

E ao nonagésimo minuto Éder prepara-se para dar o pontapé de canto pela equipa do Brasil. O jogador brasileiro ajeita a bola, depois desloca os painéis publicitários para ter mais espaço para correr e atirar com mais força, corre e chuta a bola com a parte exterior do pé esquerdo, a bola traça uma parábola a reentrar. Junto à marca da grande penalidade cria-se uma multidão, uma montanha de carne humana que salta contemporaneamente, e Dino Zoff, o guarda-redes da selecção italiana, nota desapontado que quem salta mais alto de todos é o defensor do Brasil chamado Óscar, e é precisamente ele quem cabeceia a bola, e essa cabeçada brasileira é uma pedrada violenta, um tiro poderoso e seco que vai em direcção à trave longe. Lá onde ele, Dino Zoff, 40 anos de idade, não pode chegar nem à lei da bala. A bola voa para o golo, trocista e segura, e Zoff olha à sua volta, atónito e impotente. Na confusão geral cruza com o olhar de Paolo Rossi. É uma troca de olhares breve mas muito intensa. "Dinozinho – vira-se Pablito – eu já meti três golos, o que é que fazemos? Não há tempo para fazer outro! O que é que fazes? Atiras-te e apanhas-me essa bola ou vais continuar a passear?". Mas Zoff, o quarentão, sente em cima de si todo o peso da velhice do seu corpo de guarda-redes, a artrite, a ciática e o reumático. Em todo o caso fecha os olhos, concentra-se e pensa: "Porra! O gajo tem razão!". E então atira-se felino para a bola que está quase a entrar na baliza. Aperta com força os dentes, e já não parece uma pessoa normal, mas um louco com um único objectivo na vida - apanhar a filha da mãe da bola, levantar-se e dizer ao mundo inteiro: "Filhos, nada feito: desta vez ganhamos nós!". Davide Enia nasceu em Palermo em 1974. Ponta esquerda ambidestra, forma-se no futebol, segundo os puros ditames da escola meridional, nos jogos de rua. Onde se ensina a importância do controlo da bola, qualidade que desenvolve de tal maneira a ponto de ficar conhecido como o “Vito Chimenti”(1) do bairro Malaspina Palagonia. Uma falta grave provoca-lhe uma lesão nos ligamentos cruzados do joelho que ditará o fim da sua carreira como profissional. Quem teve a sorte de o ver jogar no Garden Center ainda hoje se lembra de um golo que meteu no canto da baliza com um pontapé com o pé direito na bola no ar a partir de um livre na linha lateral. Fervoroso adepto do grande Palermo (orgulhosamente admite ter o sangue rosa e negro), é possível encontrá-lo no estádio "Favorita" na bancada Sul, disposto a moer os seus próprios fígados porque os árbitros estão sempre a embirrar com a sua equipa preferida. Teve uma paixão descabida mas muito intensa por Felice Centofanti, ponta rosa e negro da época 1991/92. Está convencidíssimo de que o maior de sempre foi Diego Armando Maradona.

"É uma epopeia desportiva (e humaníssima) destinada a ficar no seu repertório como certas efabulações populares que se tornam bocados de história, memória dos costumes, som universal de um dialecto. Ele conta um excerto da vida de uma família siciliana às voltas, à frente da TV, com o jogo-evento que em 1982 marcou a vitória da selecção italiana no mundial de Barcelona, uma partida mítica contra a equipa brasileira. Acompanhado pelos instrumentos básicos de Settimo Serradifalco e Salvatore Compagno, cantor frugal mas inspirado com uma vitalidade inesgotável, manifestante capaz de evocar excessos patriarcais, Davide Enia adopta vários ritmos narrativos, do relato ao ritual, do lacónico ao excitado, do alheado ao visionário e nalgumas fases do marcador, parado, sentado ou de pé, efectua um sobe e desce vocálico que é precisamente o do " cunto"(2) . Assim, com o pretexto das proezas com a bola e da nomenclatura dos jogadores heróis, desse ano em que morreu Fassbinder, revisitamos os cenários do café concerto, as lendas entre o despotismo e o futebol, os movimentos sem bola decantados por Carmelo Bene e assistimos a um espectáculo cheio de encanto, de vigor, de devoção e admiração".

 

30 de Maio pelas 18h no Pequeno Auditório do Rivoli
O SENHOR ARMAND DITO GARRINCHA de Serge Valetti,
tradução de Angela Leite Lopes, versão de Olinda Gil.
Por Dinarte Branco, direcção de Pedro Carraca
Uma produção Ensaio/Artistas Unidos/ Culturporto

Esta é a história do senhor Armand, membro do Júnior Olimpico de Marselha, que, para não afrontar Garrincha, e sob pretexto de não querer arriscar a carreira do campeão, convence os promotores do desafio, a anular o jogo.

Não se lembram do Garrincha ? A estrela do Botafogo. O índio de Pau Grande? O terror de todos os guarda-redes? O maior avançado de centro de sempre? Um dia o actor Eric Elmosnino descobriu um artigo sobre Garrincha. Um parágrafo suscitou o seu interesse: mencionava-se aí uma camioneta na qual Garrincha tentou que um seu amigo o levasse ainda uma vez para jogar à bola, agora que estava moribundo. Jogar à bola uma vez só. Dar uns pontapés nessa bola que toda a vida lhe acompanhara a trajectória trágica. Roído pelo álcool, o cigarro e os acidentes da vida, Garrincha morreria daí a poucas horas. Eric Elmosino leu este artigo e sonhou. Falou ao seu amigo Patrick Pineau de fazerem um espectáculo. Pediram a Serge Valletti que escrevesse um monólogo. E esta é uma peça sobre o tempo, esse vândalo, que destrói as almas e quebra as pernas dos artistas abençoados pelos Deuses. E aqui começa a história do senhor Armand. Um Francês. Também jogou futebol. Chamavam-lhe " Garrincha ". Fala., conta, sonha.

(1) Famoso jogador do Palermo nos anos 70.

(2) “Cuntu” em siciliano é a narração de um facto notável, de uma empresa heróica que vale a pena transmitir oralmente às gerações vindouras. Associado, na tradição espectacular da Sicília, à chanson de gesta francesa, celebrava em dialecto a epopeia católica dos paladinos carolíngios contra os terríveis mouros.