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Ainda
A CAPITAL
Teatro Taborda? Teatro Paulo Claro à vista?
27 de Janeiro de 2000 - 29 de Agosto de 2002 e 13 de Julho de 2003
Jorge Silva Melo
1.
Entrámos na Capital, esse enorme edifício abandonado
entre a Rua Diário de Notícias e a Rua do Norte, em Novembro
de 1999. Nós, os Artistas Unidos. E logo pensámos que poderíamos
chamar para perto de nós as várias companhias e produtoras
com quem vínhamos trabalhando, a APA, a Ilusom, a Re.Al, Diogo
Dória, Solveig Nordlund, os Depois da Uma. Ainda não sabíamos
o que lá íamos fazer, mas sabíamos que queríamos
fazer coisas e coisas em conjunto. Estava tudo sujo, alagado. Quem nos
cedeu o espaço a Sojornal com a concordância da CML
dava-nos um tempo de exploração: até Maio
de 2000. Fomos limpando, reparando telhas, localizando infiltrações,
não tínhamos tempo a perder e também fomos planeando.
E, entre detergentes e vassouras, abrimos em 27 de Janeiro de 2000, com
a reposição de dois espectáculos, Dois Homens de
José Maria Vieira Mendes a partir de Kafka e Num País Onde
Não Querem Defender os Meus Direitos, Eu Não Quero Viver
a partir de Michael Kohlhaas de Heinrich von Kleist. Depois, foi o que
se sabe: com Vai Vir Alguém de Jon Fosse, encenado por Solveig
Nordlund, estreámos a primeira produção nascida naquelas
velhas paredes e não parámos: estreámos, repusemos,
convidámos, acolhemos, entusiasmámo-nos, recebemos autores,
organizadores, falhámos, discutimos. Do grupo inicial que se instalou
nos vários recantos da Capital mantiveram-se unidos a nós
a APA, a Re.Al, a Ilusom. E foram aparecendo outros (Eira, O Meu Joelho,
Circo da Lua, Tá Safo).
Logo no final de Fevereiro de 2000, entregámos à CML e ao
MC um plano de reconversão do edifício. Propúnhamos
um Centro das Artes da Capital. Entregámos plantas e dossiers,
projectos e orçamentos, entregámos cartas de intenção
e recebemos nas instalações ministros e presidentes da câmara,
chefes de gabinete e outros ministros. E, a cada novo ministro, lá
íamos nós, de dossier e orçamento em punho, ver se
o projecto interessava (ver Revista nº 2). Todos disseram que sim,
Carrilho, Sasportes e Santos Silva por um lado, João Soares pelo
Município, todos acharam que o projecto e a dinâmica instalada
eram coisa nova em Lisboa (federativa, considerou Sasportes)
e que o MC deveria estabelecer um acordo com a CML para a realização
deste projecto que é ambicioso mas possível. E a coisa ficou
por aqui, pelo interesse demonstrado e pelo pedido sucessivo de mais dados,
orçamentos, planos. As reuniões eram inconclusivas, o interesse
apenas declarado, as decisões ficaram por tomar.
2.
Logo a 10 de Janeiro de 2002, no primeiro dia após a tomada de
posse do Dr. Pedro Santana Lopes como Presidente da Câmara Municipal
de Lisboa, entregámos de novo, na recepção dos Paços
do Concelho, o projecto de CENTRO DE ARTES DA CAPITAL, com cópia
para a Vereadora da Cultura.
E, poucas semanas depois, reunimos com a Vereadora que visitara
o local e tivera conhecimento dos seus problemas desde uma sexta-feira
13 já não sei de que mês do verão de 2001
para analisar essa proposta. Da análise surgiu a vontade clara
de deitar mãos à obra e de verificar os muitos problemas
que, até então, tinham ficado por resolver. Assim se iniciaram
contactos regulares com a Vereação da Cultura. Também
voltámos a entregar o processo ao Ministro da Cultura, em 8 de
Abril, na manhã a seguir à tomada de posse do executivo.
E reunimos, em finais de Maio, com o Secretário de Estado da Cultura,
Dr. José Amaral Lopes, que, logo ali e à nossa frente, telefonou
à Vereadora da Cultura para uma análise urgente do caso.
Estas reuniões ganharam mais precisão após a visita
do Presidente da Câmara em 4 de Junho acompanhado
do então Vice-Presidente Carmona Rodrigues, da Senhora Vereadora
da Cultura e do Director Municipal da Cultura. O Presidente da Câmara
despediu-se dando-me parabéns! e da Vereadora da Cultura
dizendo Agora isto é consigo!
A partir desta data, tudo parecia delinear-se num sentido claro. Houve
uma reunião na Capital, onde se procedeu a análise
bastante pormenorizada das necessidades urgentes e a uma calendarização
das intervenções. E estiveram presentes o Secretário
de Estado da Cultura, a Vereadora da Cultura e o Director Municipal da
Cultura. E aí se acordou que o primeiro passo seria retomarmos
um plano de requalificação já entregue anteriormente
ao MC no sentido de se fazerem obras a muito curto prazo no edifício
(instalação de quadro eléctrico, sinalização
de saídas, remoção de entulhos, coisas dessas) que
permitissem a continuação da sua utilização
até à definição que seria conjunta
entre a CML e o MC e, por isso mesmo, não poderia ser tomada à
pressa da viabilidade da nossa proposta. Esse plano, a que passámos
a chamar cirúrgico, tinha como objectivo, por um lado,
impedir a degradação do edifício e os custos da sua
conservação e, por outro, permitir a normal temporada 2002/3.
Em todas estas reuniões ficou clara uma vontade de estudar o projecto
a longo prazo, de que este plano seria um primeiro e imediato passo.
3.
Em 5 de Julho de 2002, a EDP veio cortar a electricidade por ter passado
o prazo acordado com a CML (esta ocorrência era regular, dado ser
da responsabilidade da CML a instalação provisória
da electricidade). Contactada a CML, foi-nos dito que esta renovaria o
acordo com a EDP. A 9 de Julho, recebemos cópia de um fax nessa
mesma data enviado pela Vereação da Cultura à Directora
da DSEM, em que se solicita que sejam tomadas as providências
para que não se efectue o corte de energia por um período
de um mês, momento em que esperamos estejam reunidas as condições
para a regularização da cedência do imóvel
aos Artistas Unidos.
Começaram, então, inúmeras visitas ao edifício,
coordenadas, ora pelo Gabinete Técnico do Bairro Alto, ora pelo
Pelouro da Cultura. A última foi em meados de Agosto de 2002 organizada
pela Dr.ª Lucinda Lopes acompanhada pelo Sr. César Gomes e
por bombeiros que vieram tratar do mapa da colocação dos
extintores, sinalização de emergência, plano de remoção
de entulhos, sendo-nos repetidas vezes dito que deveríamos actuar
com rapidez para que a temporada pudesse abrir normalmente no dia 5 de
Setembro. De tudo isto, possuímos cartas trocadas, faxes, registos.
E a memória das horas à espera que termine a eterna reunião
em que todos estes contactos parecem estar, desde sempre e para sempre.
Por outro lado, seguiam-se reuniões e telefonemas com o Dr. Monterroso
Teixeira. A 16 de Agosto, nos Paços do Concelho, passámos
à análise pormenorizada de alguns orçamentos do plano
de requalificação imediata, cujas rectificações
e actualizações nos comprometemos a apresentar quando o
Dr. Monterroso Teixeira regressasse de viagem, uma semana depois. E previmos
um encontro para os últimos dias de Agosto com a CML e o Arq. Pedro
Maurício Borges (autor do esboço de projecto em Fevereiro
de 2000).
No fim da tarde de 3ª feira, 27 de Agosto, recebemos um telefonema
da Vereadora convocando para uma reunião no dia a seguir, que,
no entanto, não se sabia a que horas poderia ter lugar. Informámos
que só tínhamos uma hora na qual a referida reunião
seria impossível (devido a consulta médica prevista para
as 12h), mas que bastaria um telefonema para comparecermos na CML passada
meia-hora. Houve, ainda, um outro telefonema já na tarde de 4ª
feira, 28 de Agosto, mas, a sessão da Câmara desse dia ter-se-á
prolongado, pelo que não foi possível o encontro. Na 6ª
feira, dia 29, telefona o Dr. Monterroso Teixeira sugerindo duas horas
diferentes para o encontro (15.30h ou 18h). Às 15.30h, a reunião
teve início sem a presença da Vereadora. O Dr. Monterroso
Teixeira avisou-me de que o Presidente despachara no sentido do encerramento
do local para espectáculos. E perguntou-me se não seria
possível mudarmo-nos para o Palácio Benagazil perto do Aeroporto,
palácio que eu não conhecia. A Dr.ª Maria Manuel Pinto
Barbosa chegou então e informou-me que o Presidente tinha despachado
o encerramento do local ao público e ao funcionamento. Sugeri que
deveríamos fasear o encerramento, tal como acabara de propor ao
Dr. Monterroso Teixeira, e que não deveríamos pôr
em causa a estreia, a 5 de Setembro, de Mouchette de Arne Sierens, tanto
mais que este espectáculo em vésperas de ensaio de
imprensa estava previsto para o rés-do-chão, que
era, na opinião de todos, o espaço com menos perigo do edifício,
dado possuir cinco saídas. Ficou combinado que eu iria preparar
um mail a ser enviado, com a maior urgência, ainda nessa tarde com
esta contraproposta. Ao entrar para o elevador do mesmo piso, toca o meu
telemóvel e perco a rede ao fecharem-se as portas. Já
na rua, ligo para a Capital e dizem-me, nervosos, que a polícia
municipal está no local com uma notificação que o
mandava encerrar de imediato.
Nesse dia, não consegui mais contactar a Câmara (a Vereadora
deslocara-se ao Chiado onde havia um encontro com o Senhor Primeiro Ministro)
a não ser à meia-noite quando, num debate da SIC-Notícias,
me encontrei com a Vereadora do Urbanismo, Eduarda Napoleão, que
aí publicamente se responsabilizou pelo parecer que, por questões
de segurança, ditou o encerramento das instalações.
Logo após o debate, a Vereadora avançou-me algumas hipóteses
de solução. No dia seguinte, 6ª feira, 30 de Agosto,
telefonou-me várias vezes, sugerindo vários locais para
a apresentação dos espectáculos destelhados
locais que iam do Pavilhão do Futuro na Expo à Estufa
Fria, ao CCB, ao Teatro Vasco Santana, uma das salas do Cinema São
Jorge ou o Teatro Taborda. E, ao fim da tarde, combinámos um encontro
para segunda-feira, 2 de Setembro, em que visitaríamos o Palácio
Benagazil e planearíamos mudanças. Enviei, nesse dia, uma
listagem das características técnicas da realização
dos espectáculos, assim como de espaços adequados para a
sua apresentação, que o Pelouro do Urbanismo se comprometeu
a contactar directamente.
Nessa mesma 6ª feira, a polícia municipal entrou no edifício
e deu ordem de prisão à Directora de Produção
por crime de desobediência (essa funcionária assinara a notificação
da véspera). O incidente foi resolvido com uns telefonemas para
o Comando-Geral e não houve prisão.
4.
Começam, entretanto, a surgir inúmeras mensagens de apoio
vindas de amigos a primeira a chegar foi de Jon Fosse, o nosso
amigo norueguês que foi quem primeiro estreou e nos visitou na
Capital e até de desconhecidos que muito nos sensibilizaram.
Instalados num apartamento do centro de Lisboa, tentámos dar resposta
aos inúmeros problemas, com uma permanência militante e uma
só linha telefónica
Um abaixo-assinado circula, mensagens
de apoio aparecem um pouco por todo o lado. Pela net, por carta, por telefone.
E os ensaios de Nunzio recomeçam; e, na mesma cozinha, a horas
diferentes, retomamos os ensaios de O Encarregado com estreia marcada
para Dezembro na Culturgest.
Na 3ª feira, 3 de Setembro, pela manhã, telefona-me a Dr.ª
Maria Manuel Pinto Barbosa dizendo que o estado de conservação
e segurança do palácio Benagazil era pior do que a
Capital. E, no dia seguinte, foi-nos sugerido visitar de imediato
uma parte de um edifício de Braço de Prata (R. Fernando
Palha, 26, R/C Esquerdo) pertencente à CML. Assim o fizemos, e
acompanhados por ambas as Vereadoras e o Director Municipal, mas sem poder
entrar em todas as instalações por não se encontrarem
as chaves das arrecadações. Ficámos de aguardar pelas
chaves (encontradas em 12 de Setembro) para avaliarmos da utilização
a dar a estas instalações (poderia haver armazém?
carpintaria? ou serviriam apenas de escritórios?).
Em visita à Capital efectuada a 4 de Setembro pela Vereadora do
Urbanismo, o engenheiro João Appleton e o Gabinete Técnico
do Bairro Alto, voltei a defender uma evacuação progressiva
do edifício e a permanência de escritórios no prédio
da Rua do Norte. Argumentei com os custos sociais que o abandono de um
edifício daquelas dimensões representaria (intrusão,
degradação acelerada na altura das chuvas, situação
sensível sobretudo na Rua do Norte onde o quarteirão já
quase não tem vida). A Vereadora manifestou desinteresse por esta
minha proposta tanto mais que, disse, as obras iriam ter início
dentro de dias com o entaipamento de uma parte, e afirmou que eu próprio
e o Arquitecto Pedro Maurício Borges seríamos chamados para
analisar o plano de estruturação do edifício, tendo
em vista a discussão a partir de agora e de maneira clara
do futuro Centro das Artes.
No dia 5 de Setembro, fui chamado ao Ministério da Cultura para
o final de uma reunião que, nessa mesma manhã, ocorrera
entre a SEC e a CML. E foi-me proposto, pelo Secretário de Estado
da Cultura, instalarmo-nos durante dois anos e a partir de Janeiro de
2003 num armazém actualmente ocupado pelo IPPAR nas antigas OGMEE
em Belém. Nessa mesma manhã, foi possível visitar
o edifício que se encontrava em pior estado do que a Capital,
sendo impossível nele instalar electricidade, correndo o perigo
de infiltrações e incêndio. Mas, nas mesmas OGMEE,
o senhor Secretário de Estado da Cultura descobriu outros barracões,
afectos, não ao IPPAR, mas ao IPM. E foi-me dito que seria possível
instalarmo-nos aí a partir de 1 de Janeiro de 2003. Estes dois
anos corresponderiam às obras de requalificação na
Capital, cujo início deveria ocorrer dentro de dias. Esta visita
às OGMEE foi realizada com as Vereadoras da Cultura e do Urbanismo
e com o Director Municipal da Cultura, assim como perante vários
funcionários do MC.
Pedi um dia para voltar a analisar aquelas que me pareciam excelentes
instalações degradadas, mas excelentes com
tranquilidade. Consegui marcar essa visita logo para 6ª feira, 6
de Setembro. E, no dia 8, 2ª feira, enviei um fax ao MC com propostas
claras de utilização e calendarização de trabalhos,
mudanças, instalação. Propostas que também
comuniquei à Vereação do Urbanismo: fazer-se uma
evacuação gradual da Capital e utilizarmos o mais
cedo possível um dos pavilhões das OGMEE para receber o
material cenográfico da Capital que não fosse de uso
imediato, até por causa das limitações de pé-direito
das arrecadações de Braço de Prata que finalmente
pudéramos visitar mas onde só nos conseguimos instalar a
partir de Outubro.
5.
E sobreveio um inquietante silêncio. Por portas travessas e fontes
bem informadas, começámos a ouvir falar de um orçamento
de 120 mil contos para colocar telhas, instalar electricidade, limpar
e desimpedir os barracões das OGMEE; falar de reuniões do
MC com a CML para se averiguar quem paga o quê; ouvimos falar da
indisponibilidade de alguns dos actuais usufrutuários desses barracões
em no-los ceder temporariamente; ouvimos dizer que terá havido
quem se precipitasse a encher de entulho os barracões que lhe eram
afectos e que se encontravam totalmente devolutos a 6 de Setembro (quando
os visitei com o João Fiadeiro, o Pedro Domingos, o Miguel Borges,
o João Meireles e o Américo Silva). E quer a SEC quer a
CML foram, durante estes meses, remetendo as decisões para reuniões
a serem marcadas uma com a outra.
E chega Dezembro, o mês em que deveríamos abandonar as instalações
de Braço de Prata e mudarmo-nos para Belém. Como prevíramos,
nada disso aconteceu, a CML não chegou a acordo com o MC acerca
dos pavilhões das OGMEE, e só a 23 de Dezembro tenho resposta
cabal do Ministério em relação a esta promessa inviabilizada
e a meu ver inviável.
Conseguimos, com a ajuda quotidiana do Pelouro da Cultura, resolver o
início da temporada 2002/3, estreando todos os espectáculos
que tínhamos previsto, embora com curtíssimas carreiras
simbólicas, prolongando A Colecção de Harold Pinter
no CCB, estreando Nunzio no belo Belém Club, repondo Há
Tanto Tempo de Harold Pinter no Acarte e estreando Mouchette de Arne Sierens
na Voz do Operário. A CML ajudou-nos a encontrar os espaços
alternativos, os transportes e assegurou parte das despesas acrescidas.
E ainda fomos ao Porto com três peças de Harold Pinter e
fizemos, com o British Council, um Seminário de Escrita Teatral,
em colaboração com o Traverse Theatre.
E assim passámos 3 ou 4 meses a enviar faxes, fazer telefonemas,
copiar chaves, fazer orçamentos, mudar calendários e agendas,
organizar transportes, arrumar papelada, empacotar, procurar documentos
perdidos nos transportes, instalar telefones, desempacotar, aguardar telefonemas,
voltar a enviar faxes, enviar e-mails, refazer orçamentos, ensaiar
quando se podia, voltar a enviar faxes e a fazer telefonemas.
O que resta de nós depois de dois meses sem tecto?
perguntávamo-nos em finais de Outubro de 2002, quando nos demos
conta de que nada estava para acontecer, de que nada iria realizar-se
como previsto, que, durante mais uns meses, teríamos de continuar
a improvisar escritórios e salas de ensaio, arrumações
e carpintaria e a fazer espectáculos lá de vez em quando,
dez representações para Mouchette, nove para O Encarregado.
O resto da temporada 2002 descambou: o teatro não é feito
para se realizarem umas quantas representações e se arrumarem
os tarecos como na Feira da Ladra pelas 6 da tarde, ao dobrar da meia
dúzia.
Entretanto, já iniciáramos os nossos trabalhos para 2003.
Iríamos repor O Meu Blackie de Arne Sierens nos primeiros dias
de Janeiro no São Luiz e sobretudo fazer Baal de Bertolt Brecht,
para cujos ensaios tínhamos contado com os pavilhões das
OGMEE então prometidos e logo indisponíveis. Que fazer?
Lá tivemos que alugar uma improvisada sala de ensaios à
Fábrica Nacional, lá dividimos os trabalhos entre escritório
e sala de ensaios, lá fomos continuando. Cada vez mais cansados,
é certo, que o desgaste destes dias sem horizonte (para onde
vamos? o que preparamos?) não tem preço.
A Secretaria de Estado da Cultura remetia todas as respostas às
nossas perguntas para reuniões a haver com a CML. Esta afirmou
que se tratava de uma solução morosa devido à
sua complexidade, que não poderá ser definida
sem ponderar as devidas consequências e alternativas em termos logísticos
e financeiros. E nós de um lado para o outro.
Dobrou o ano e não nos puseram fora das instalações
de Braço de Prata: em Julho de 2003 ainda lá estavam o os
nossos escritórios e ainda lá se ensaiava (os APA ensaiaram
lá um Strindberg, os Tá Safo prepararam A Festa de Spiro
Scimone), O Meu Blackie foi feito no São Luiz e em Évora,
Baal estreou em Viseu e lá fez a sua carreira em Coimbra, Lisboa
(São Luiz), Famalicão (Casa das Artes) e Évora (Garcia
de Resende). O cenário, que é grande, foi arrumado na
Capital.
Durante meses, não soubemos até quando podíamos contar
com essas instalações. A certa altura, foi-nos dito que
poderíamos, no enorme quintal, instalar tendas onde arrumar o material;
foi-nos depois dito que não. Foi-nos dito que poderíamos
contar com dois anos de permanência lá; depois, que teríamos
de sair a breve prazo. Se assinámos um contrato com a Somague que
nos permitia utilizar aquele espaço até finais de Dezembro
de 2002, só em 27 de Junho de 2003 se vislumbrou uma solução
alternativa para os escritórios com a assinatura de um contrato
de cedência para efeitos de escritórios, e por parte da EGEAC,
das instalações da Rua de Campo de Ourique, nº 120.
6.
Em inícios de Fevereiro, o Presidente da Câmara Municipal
de Lisboa chama-nos. E a reunião foi breve, simples, afável
e determinada: por um lado, a garantia de que começaríamos
as discussões do Centro das Artes e que o plano de reconversão
do edifício seria analisado com o Arq. Pedro Maurício Borges;
por outro, a proposta de nos instalarmos no Teatro Taborda durante o tempo
em que decorressem as obras (avaliado em duas temporadas). E começaram,
então, novas reuniões com a Vereação da Cultura
e com a Vereação do Urbanismo de que saiu, em 19 de Fevereiro,
um comunicado onde se diz Foi decidido avançar-se de imediato
com a preparação de um Programa para o futuro Centro de
Artes, a ser apresentado por Jorge Silva Melo e sujeito posteriormente
a discussão com a Vereação da Cultura da CML e outras
personalidades e entidades representativas do meio artístico, que
deverá estar concluído até ao final do próximo
mês de Março. Com base num levantamento rigoroso das plantas
e áreas disponíveis, a realizar pelo Gabinete Técnico
do Bairro Alto, tutelado pelo Pelouro de Intervenção Urbana
da CML, e no Programa funcional e cultural entretanto aprovado, será
elaborado um estudo prévio para a recuperação do
Espaço A Capital, enquanto equipamento polivalente, destinado ao
teatro, à dança, ateliês, workshops, oficinas e centro
de serviços. Dado o envolvimento do arquitecto Pedro Maurício
Borges na conceptualização das funcionalidades para este
equipamento e pelo acompanhamento dos estudos de arquitectura que serviram
de orientação ao plano para um espaço multidisciplinar,
foi decidido associá-lo desde já ao projecto final, ficando
assim com a responsabilidade do trabalho de arquitectura. Perante a escala
do edifício e as implicações orçamentais da
obra, será implementada uma intervenção faseada de
requalificação que permita a reabertura do espaço
A Capital tão brevemente quanto possível. Para salvaguardar
a actividade regular dos Artistas Unidos, foi apresentada a Jorge Silva
Melo, em finais de Janeiro, pelo Pelouro da Cultura, a possibilidade de
virem a centrar as suas actividades no Teatro Taborda, equipamento da
tutela da CML.
7.
Na Capital começaram os despejos de entulhos, a nova limpeza
dos algerozes, uma série de intervenções pontuais
coordenadas pelo Gabinete Técnico do Bairro Alto; na Câmara,
começou a discussão do programa das obras a partir de um
documento que refizemos com base na experiência adquirida nos dois
anos de vida lá.
Chegou a estar marcada uma reunião na Vereação da
Cultura para o dia 24 de Abril para a discussão do programa de
obras; a reunião foi anulada alguns dias antes sem alternativa;
as reuniões sobre o Teatro Taborda sucederam-se até ao dia
23 de Junho em que uma proposta começou a ser analisada com rigor,
tendo uma minuta de contrato de cedência sido enviada para nós
em 27 de Junho.
As mudanças vão recomeçar.
8.
Escrevo este memorando na tarde de 11 de Julho de 2003. Já nos
foram entregues as chaves dos novos escritórios; ainda não
temos contrato para o Teatro Taborda; ainda não foi marcada reunião
para a discussão do Centro das Artes da Capital e elaboração
do respectivo programa. Pode ser que ainda hoje haja telefonemas, vivo
este ano de telemóvel ligado mesmo em ensaios, aguardando marcação
de reuniões.
9.
Foi um ano terrível, cansativo, depressivo, desmobilizador, triste.
Trabalhámos que nem doidos, quase não se viu o nosso trabalho,
perdemo-nos, reencontrar-nos-emos?
Foi um ano em que muita gente se foi embora; em que perdemos batalhas
após batalhas; foi um ano de poucas alegrias, de uma modorra burocrática
que também entrou por dentro de nós.
Foi também o ano em que recebemos apoio como nunca ninguém
recebeu, apoios inquietos de quem, Europa fora, percebeu e se inquietou
com esta história simples e obscura.
Foi um ano em que pudemos continuar graças a apoios pontuais da
Câmara Municipal de Lisboa. Se conseguimos fazer os espectáculos,
se conseguimos manter escritórios, deveu-se isso à atenta
boa vontade da Vereação da Cultura.
E, no entanto, estamos sem solução. Se viermos a dispor
do Teatro Taborda durante dois anos (os dois anos de obras de reconversão
da Capital) deve-se à intervenção directa do
Presidente da Câmara de Lisboa.
Mas, a 13 de Julho de 2003, ainda não temos a certeza nem do Teatro
Taborda, nem das obras de reconversão d´a Capital.
O Ministério da Cultura ignora entretanto tudo isto.
10.
Ontem, dia 12 de Julho, jantámos no Primavera, ali à Travessa
da Espera. Éramos o Vítor Correia, o João Meireles,
a Vanessa Dinger, o Antonio Onetti, o António Simão, a Teresa
Sobral, o Miguel Sobral, o Francisco Frazão, o Juan Mayorga, eu,
a Sandra Ouro. É normalmente no Primavera que jantamos quando temos
visitas, e lá levámos o Jon Fosse, a Judith Herzberg, o
Karst Woudstra, o Spiro Scimone, o David Greig, o David Harrower, a Katherine
Mendelsohn, o Graham Whybrow, a Roxana Silbert, os nossos amigos.
E depois, já era escuro, fomos mostrar a Capital aos nossos amigos
espanhóis, entrámos por ali dentro, tudo está arrumado,
mais ou menos limpo, podíamos fazer tantas coisas, tantas coisas
diferentes, podíamos estar a inventar, e podíamos até
estar a ser felizes no nosso Teatro Paulo Claro. Quer o Antonio Onetti
quer o Juan Mayorga ficaram emocionados, há ali uma emoção
que nos ultrapassa. Porque sabemos que foi possível não
há razão para não o ser.
11.
É evidente que o projecto deste teatro é novo, não
é copiado de outros sítios, teria uma organização
e uma prática diversas, seria outra coisa. E é isso de ser
outra coisa que é difícil de fazer compreender.
Mesmo às vezes para nós.
12.
Iremos resistir ao exílio? Faremos honra aos nossos compromissos?
Teremos força e energia? Iremos sobreviver? Como?
13 de Julho de 2003
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