Quatro meses no exílio

Chegam ao fim as representações que prevíramos para 2003. Conseguimos estrear os espectáculos todos que tínhamos previsto. Conseguimos continuar a carreira de A COLECÇÃO de Harold Pinter no Centro Cultural de Belém, onde também prolongámos TRAIÇÕES do mesmo autor. Conseguimos estrear MOUCHETTE no belíssimo salão da Voz do Operário. E colocar NUNZIO no esquecido Belém-Club. E colocar HÁ TANTO TEMPO no Acarte. Conseguimos estrear O ENCARREGADO a 5 de Dezembro de 2002 no Pequeno Auditório da Culturgest.

Solidariedade de uns, apoio de outros, os espectáculos foram feitos. Mas a lógica de programação que prevíramos para esta temporada 2002/3 perdeu-se; as carreiras dos espectáculos foram relativamente curtas; alguns quase não tiveram espectadores; a circulação entre espectadores e nós próprios que era o interessante na vida de um espaço como o do Teatro Paulo Claro perdeu-se

Terá valido a pena estrear os espectáculos - e enchermo-nos de dívidas? Terá algum sentido apresentar espectáculos um pouco por todo o lado? Ou não devíamos ter guardado os espectáculos para retomar num outro local? A presença de tanto trabalho em simultâneo justifica-se num espaço como o da Capital; mas dificilmente se afirma se espalharmos actividades por Lisboa.
Terá valido a pena?
Ou não estivemos a queimar espectáculos que foram feitos com cuidado e amor e agora apresentámos desprotegidos da sua lógica de programação?

Tínhamos, quando A Capital foi fechada, uma das melhores temporadas em vista. Acabámos por realizá-la por metade. Faz sentido fazer apenas nove representações de O ENCARREGADO de Harold Pinter - que pensávamos poder prolongar por Janeiro? Faz sentido MOUCHETTE ter sido apenas apresentada por 15 dias? Não teria NUNZIO continuado a encher no nosso Teatro Paulo Claro?

Agora ensaiamos BAAL de Bertolt Brecht e arrumamos cenários e não sabemos onde poderemos apresentar para carreiras realmente dignas nem NUNZIO nem MOUCHETTE nem O ENCARREGADO nem UM PARA O CAMINHO nem O AMANTE que prevíramos repor.

Não estamos então apenas a fazer uma fuga para a frente, sem bases, sem pensar?
O que fazer?
A sensação que nos fica neste Inverno é a de uma brutal indiferença em relação ao nosso trabalho.
Que foi pensado - repertório, economia, distribuição, calendários - de acordo com um local e um período específico.
E que provavelmente deixa de fazer sentido noutros locais, assim desorganizados e imprevistos.
E estamos cansados.
E, entretanto, muita gente foi-se indo embora.
Teremos feito o que devíamos ao aceitar continuar? Ou não deveríamos antes ter parado, pensado, repensado, feito as contas e dedicado mais tempo ao equacionamento político de tudo isto?

Não sabemos. Não sabemos o que teria sido a História se tivessem sido tomadas outras decisões. Mas é frustrados e amargos que chegamos ao final do ano: sem dinheiro, sem local de trabalho, sem programa para o ano que vem, sem calendário, sem respostas.

Este ano de 2002 foi injustamente duro para nós ( e para os espectadores que connosco se surpreendem) ; mas mais duro será o de 2003.

É que não sabemos.

Jorge Silva Melo