Artistas Unidos preocupados
Patrícia Viegas

Os Artistas Unidos e os seus associados foram despejados do Teatro Paulo Claro - antigo edifício do jornal A Capital - no Bairro Alto, no dia 29 de Agosto. Passados que estão quase dois meses fizeram, ontem à tarde, em conferência de imprensa, um balanço da situação.

"Não contesto a decisão de fechar, mas sim a forma como as coisas têm sido conduzidas", afirmou o actor e encenador Jorge Silva de Melo. O dinamizador do grupo contesta a falta de diálogo que tem existido entre ele, o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Lisboa e queixa-se da falta de condições do espaço provisório, em Braço de Prata, que lhes foi emprestado até 31 de Dezembro. Nessa altura, devem mudar para as Oficinas Gerais de Materiais de Engenharia (OGME), em Belém.

Mas o grupo considera que não tem condições para trabalhar e que, face aos compromissos que já assumiu, necessitaria de fazer as mudanças a partir de 10 de Dezembro. As obras necessárias nas antigas OGME e o entulho que lá se encontra levam os Artistas Unidos a duvidar da efectiva transferência do grupo para Belém dentro dos prazos estabelecidos. Fonte do gabinete do Ministro da Cultura, citada pela Lusa na quinta-feira, disse que os prazos estão a ser escrupulosamente cumpridos por parte do ministério e não há qualquer oposição a uma transferência antecipada.

Depois de vários faxes, telefonemas e cartas sem resposta e uma conferência de imprensa agendada, os Artistas Unidos foram finalmente contactados, pelo Gabinete Técnico do Bairro Alto, na quinta-feira à tarde. Motivo: deveriam estar presentes n'A Capital, na manhã do dia seguinte, para proceder à arrumação do material que lá se encontrava e para acertar pormenores das obras, que começariam a 30 de Outubro, e que consistiriam na remoção de entulhos e da instalação eléctrica, entre outras coisas. Isto levou os Artistas Unidos a pensar que se tratariam das tão prometidas obras de fundo e que a mudança do grupo para a OGME poderia estar, de alguma forma, comprometida. "Decidiram investir o dinheiro n'A Capital em vez de restaurar as instalações de Belém?", questiona-se Jorge Silva Melo, para logo a seguir responder: "não sei".

Fonte do gabinete de imprensa da vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, afirmou, ontem, ao DN que "apenas houve uma visita técnica para se poder começar com o processo das obras" e confirmou a transferência do grupo para Belém. Em relação às queixas dos Artistas Unidos, acrescenta que da parte do pelouro da Cultura "nunca houve falta de diálogo".

Nas instalações de Braço de Prata os artistas afirmam não ter condições para guardar cenários e nem mesmo para ensaiar. O grupo tem ensaiado O Encarregado, de Harold Pinter, numa arrecadação. E a peça tem estreia marcada para o dia 5 de Dezembro na Culturgest. "Ensaiamos nas estrebarias e depois passamos para os palácios", disse Jorge Silva Melo. A companhia, com mais de 20 actores, tem já dois meses de salários em atraso. Coisa que, segundo o encenador, nunca tinha acontecido antes.

Diário de Notícias, 26/10/2002