| DOIS HOMENS de José Maria Vieira Mendes (a partir de Kafka) |
Estreia Antiga Fábrica Mundet do Seixal. (Seminário SEM DEUS NEM CHEFE 1), 3 de Outubro de 1998. O texto está publicado no volume Três Peças Breves (Edições Cotovia). Fez-se uma colagem de diversos escritos de Kafka (contos, diários, cartas e romances), de olhos postos, não no Kafka excessivamente apontado como crítico ou caricaturista de regimes e instituições, mas no Kafka escritor do Indivíduio, nas suas quase obsessivas reflexões autobiográficas sobre o processo de escrita que sempre vinha acompanhado por um desejo inatingível de perfeição, culpa de quase tudo o que do escritor nos resta se ter ficado pelo fragmento incompleto.
Um Homem fala, caminhando num escritório onde o tempo parasse. Afunda-se atrás da secretária minúscula, quase colada ao corpo, arrasta-a, para voltar a afundar-se nela, cosido a um canto. Tem brilhantina no cabelo e fato escuro, move-se em ambiente sépia de fundo negro, a frouxa luz incide em madeira gasta, velhos papéis espalhados, pastas de arquivo amontoadas. Trancou-se no escritório, como à noite se tranca no quarto, sabendo, na sua consciência de condenado, que "não adianta trancar a porta, duas portas... ele entra na mesma". José Maria Vieira Mendes construiu um texto exemplar, de rigor e de sensibilidade, que engloba, na sua estratégia dramatúrgica, personagem, interlocutor e o mundo. Luís Gaspar construiu a personagem certa para a "medida" do seu texto. Um exaustivo compêndio de textos de Kafka. Quase podia dizer-se, o Kafka todo, compendiado por José Maria Vieira Mendes e encenado visceralmente por Luís Gaspar. A descontinuidade é uma característica deste teatro da palavra, onde, quando menos se espera, um Kafka esconde sempre outro Kafka, mais inesperado e inatingível. |


