T1 de José Maria Vieira Mendes
Um quarto, uma rapariga,
três rapazes. Quando foi? Quem se perdeu? Porquê? Tudo se
passa num T1, entre rapazes e raparigas. Houve umas cervejas. Ou foi só
uma cantiga do verão que acabou?
SARA Tens comido?
ALBERTO Um bocado.
SARA O quê?
ALBERTO Baratas.
SARA Baratas?
ALBERTO Baratas o quê?
SARA O quê?
ALBERTO O que é que disseste?
SARA Eu?
ALBERTO Acho que não percebi.
SARA O que é que tu disseste?
ALBERTO Estás bem?
José Maria Vieira Mendes, T1
T1 é o primeiro
original de José Maria Vieira Mendes escrito para várias
personagens: fecha-se assim um círculo iniciado com DOIS HOMENS,
um monólogo a partir de Kafka. Parte de uma regra antiga do teatro,
a unidade de lugar: uma casa, três portas, quatro personagens que
entram e saem, que se encontram e se despedem, bebem e falam. Podia ser
uma comédia de boulevard, ou uma daquelas noites americanas de
realismo psicológico. Mas se nas RUÍNAS de Sarah Kane a
guerra rebentava uma parede para entrar dentro do quarto de hotel onde
um casal discutia, se na peça anterior de JMVM tremia o CHÃO
de duas casas diferentes que avançavam no tempo em direcções
opostas, também em T1 o palco - embora imóvel como quase
todos os palcos - não podia deixar de ser um lugar instável.
Sem mudanças de cena, diante dos nossos olhos, veremos como uma
sala pode esconder outra, e outra, e outra ainda. Basta acreditar (não
é preciso ser todo o tempo, porque o tempo também vai entrar
no jogo) nas histórias daquelas personagens. Elas próprias,
às vezes, até sabem que as casas se movem como o oceano
e se distinguem designadamente pelo cheiro.
Acreditamos num cenário
em teatro quando tomamos um buraco por uma porta, o foco por uma lua,
ou uma coluna que lá está por uma floresta. E por isso é
possível um mesmo palco, uma mesma área, num dia ser isto
e no seguinte aquilo. Quantas vezes não o vi acontecer no espaço
d'a Capital, que acompanhei por dentro durante dois anos. Foram estas
duas capacidades das paredes no teatro, a proteica e a sugestiva, que
serviram de arranque para escrever T1. Quis uma peça que contasse
a história de um cenário que começa com uma forma
e acaba com outra, mas cuja mudança não fosse dada a ver,
antes fosse sugerida. Assim contém o palco o fim já no princípio.
Se nos distanciarmos, apercebemo-nos da ilusão, se nos mantivermos
fiéis à ficção, acreditamos. As personagens
apareceram mais tarde. São quatro, ouvem a música que me
ajudou a escrever, música rápida, como a história.
Filhas do cenário, cresceram nos apartamentos que vemos, nunca
de lá saíram, e apesar disso, parece-me, podiam ser nossos
vizinhos.
José Maria Vieira Mendes
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