VICTORIA STATION de Harold Pinter
Um homem da central
de táxis, um motorista. E o inesperado acontece no meio deste diálogo
trivial.
Homem da Central
Nunca ouviu falar de Victoria Station?
Motorista Eu não, nunca.
Homem da Central É uma estação famosa.
Motorista Então olhe, pergunto-me o que é que andei
a fazer estes anos todos.
Homem da Central O que é que andou a fazer estes anos todos?
Motorista Se quer que lhe diga, não sei lá muito
bem.
Harold Pinter, VICTORIA STATION
VICTORIA STATION estreou
a 14 de Outubro de 1982 no National Theatre, integrada no espectáculo
OTHER PLACES (que incluía ainda A KIND OF ALASKA e FAMILY VOICES).
A encenação era de Peter Hall e a interpretação
de Paul Rogers (Homem da Central) e Martin Jarvis (Motorista).
VICTORIA STATION não
podia ter sido escrita por absolutamente mais ninguém; só
Pinter podia trazer a este diálogo o interesse pela manipulação
mútua, a banalidade e ao mesmo tempo a estranheza da linguagem,
do lugar e das acções, a indefinível sensação
de desconforto que nos deixa sem saber se não estaremos a ouvir
dois espectros jogando o seu derradeiro ritual numa Londres vazia e abafada.
Benedict Nightingale, The Spectator, 22 de Outubro de 1982
Em
VICTORIA STATION, um motorista de táxi parado junto a um "jardim
sombrio" no Crystal Palace e o homem da central que, progressivamente
enlouquecido, se debate através das ondas hertzianas com a incompreensão
aturdida do outro e com a sua própria solidão atroz esboçam
os contornos de uma dependência mútua tão desesperada
e carregada de mal-entendidos que a promessa do homem da central para
"ir aí ter" soa como uma ameaça de morte e o suplicante
"Não me deixe" do taxista balbuciado para o rádio
soa como o grito de uma criança indefesa. Um no seu escritório
obscurecido, o outro no seu táxi obscurecido, falam dos ossos do
ofício de forma cada vez menos convincente e ambos acabam por ceder
à fantasia escapista. Irá o homem da central "lá
ter" ou trará o motorista de volta para uma boa chávena
de chá? Tem este um Passageiro A Bordo, uma rapariga adormecida
por quem, como diz, se apaixonou, e ficará no Crystal Palace para
sempre? Terá talvez assassinado a rapariga? Tê-la-á
agredido? Passar-lhe-ão estas coisas pela cabeça sequer?
Alan Jenkins, Times Litterary Supplement, 29 de Outubro de 1982
VICTORIA STATION é
Pinter vintage, a fazer lembrar O SERVIÇO e CÂMARA
ARDENTE. É como se Pinter, depois da aventura estilística
de TRAIÇÕES, estivesse a experimentar com dois estilos e
abordagens diferentes, procurando uma nova síntese entre o grotesco
surrealista por um lado e um realismo metafísico por outro.
Martin Esslin
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