VIVE
QUEM VIVE de Jacques Prévert
É
noite de Natal. Há um senhor nem muito pobre nem muito rico a precisar
de um táxi para voltar à moradia onde vive sozinho e onde
pretende cumprir sem companhia o seu ritual de consoada: os brinquedos
da infância com que nunca brincou, a missa do galo pela rádio,
sem esquecer o peru.
Depois há um indivíduo muito mais pobre do que rico que
tem outros planos para a noite (a sua e a do senhor): começa por
arranjar o tal táxi, vai com o senhor no carro e entra-lhe em casa
enquanto o cão vai buscar o resto da família.
Vai haver festa, os brinquedos vão finalmente servir, as velas
vão acender-se e a caixa de música, que nunca tinha tocado,
vai competir com os cânticos como deve ser da rádio, onde
também se faz publicidade a um produto que vai resolver a noite.
O SENHOR Quem é você? E para onde é que vai?
O INDIVÍDUO Para a sua casa.
O SENHOR (aos berros) Vamos lá a ver, meu amigo, meu pobre amigo,
eu não o convidei.
O INDIVÍDUO Um simples esquecimento, como é que um amigo
como eu podia ficar zangado consigo?
O SENHOR (a sufocar) Mas eu não sou seu amigo!
O INDIVÍDUO (muito afectuoso) Mas eu cá sou seu amigo...
acaba de o dizer... meu amigo, meu pobre amigo!
O SENHOR (aos berros) Mas eu disse isso de brincadeira, com tom de menosprezo!
O INDIVÍDUO Como é que eu podia ficar zangado?
Jacques Prévert, VIVE QUEM VIVE
Jacques
Prévert publicou a peça infantil GUIGNOL em 1952, com desenhos
de Elsa Henriquez.
"Guignol" é uma marioneta sem fios, operada com os dedos,
mas também pode ser o teatrinho onde se representam peças
cujo protagonista se chama Guignol; por extensão, aplica-se a uma
pessoa involuntariamente ridícula, ou a um acontecimento grotesco.
A peça de Prévert,
ao romper com os estereótipos que é costume fornecer às
crianças em época de Natal, interroga também os significados
habituais das palavras: "guignol", involuntariamente ridículo,
será o senhor como deve ser, aquele que finge que vive, que grita
e gesticula muito; mas será a acção da peça
apenas um grotesco "mundo às avessas", uma "guignolesca"
inversão de papéis que fica arrumada com o cair do pano?
Já
sabíamos que as histórias para crianças são
lugares onde se vê a ideologia a olho nu (sinal recente disso são
os ingénuos contos infantis "politicamente correctos").
Com humor, música, um taxista, um polícia e um vidraceiro,
o "homem do saco" e animais que falam, misturando a vida de
todos os dias com a fantasia, Prévert acaba por contar uma história
não muito diferente das "ocupações da propriedade"
a que nos habitou Harold Pinter (aqui, a violência dissimula-se
debaixo de um sono de uma semana). Esta história de "conquista
da felicidade", longe de ser panfletária, talvez ajude a pensar
e a pôr em causa. Vive quem vive.
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